ANTROPOSMODERNO






    Vitória • Português

    O tema que nos foi proposto recobre a dimensão da política inerente a sessão analítica. O que nos ensina a sessão analítica sobre a política ? A sessão analítica sanciona um momento da prática da psicanálise que é regida pelo tempo.

    Nesta perspectiva que se desenha logo acima é interessante abordar a questão da política da sessão analítica como sendo a política do tempo em psicanálise. Diante desta proposta surgem as seguintes questões: qual é o estatuto da política em psicanálise ? Como podemos abordar o estatuto do tempo em psicanálise ?

    1) De qual política falamos ? Para desenvolver esta parte vamos recorrer ao texto de Jacques-Alain Miller intitulado: "L’acte entre intention et conséquence" (1). Acreditamos que é a partir dele que podemos se servir de algumas orientações para melhor cernir o que entra em jogo na política lacaniana.

    O princípio em torno do qual Miller gira a política lacaniana se inscreve no ato na medida em que esse ato depende do arrolar de seus efeitos. Desta maneira ele apresenta um Lacan que formula sua política no vigor de uma ética das conseqüências. Para Miller, ocorre uma oposição na política lacaniana entre uma "ética da boa intenção, que não é freudiana, que é incompatível com o campo freudiano, a ética da boa fé e, a ética des séries, a ética conseqüencial, a ética das conseqüências, que julga o ato e também seu estatuto e seu valor nas suas conseqüências" (2).

    Norteando-nos por esta via do campo freudiano podemos dizer que estamos aqui debatendo questões que atravessam "A política da sessão analítica" como um momento onde colhemos e julgamos o que está sendo os efeitos do ato de Lacan quando ele rompe com a duração, número e rítimo das sessões na prática da psicanálise. É neste contexto que Lacan foi considerado por alguns de seus comentadores como o grande "des-regulador" da prática da sessão analítica quando ele muda a dimensão temporal.

    A prática de combate contra os "standards" evidencia uma certa singuralidade onde podemos verificá-la na possilidade das conseqüências do seu ato. É também por esta via que podemos colher algo da responsabilidade. Recentemente na sua intervenção sobre "A sessão analítica" Flory Kruger fez valer o quanto a "des-regulação" (3) dos "standards" operada por Lacan requisita o comparecimento da responsabilidade do analista na decisão de praticar as sessões curtas. Tal decisão tem conseqüências transferências no curso da análise do sujeito.

    Extraindo os princípios que estão presentes na política formulada por Lacan, Miller nos orienta no exercício de "uma certa política de insistência, a insistência em desvelar o desejo atrás das boas razões e da boa intenção" (4).

    Insistir em pôr a prova a política da sessão analítica promovida por Lacan tem suas incidências na caminhada da nossa comunidade na medida em que já rompemos com as barreiras de isolamento praticadas no funcionamento e na estrutura da IPA. Deduz-se daí que a clínica e a política são inseparáveis na psicanálise de orientação lacaniana. Com esta orientação, Miller faz valer as conseqüências clínicas do ensino proposto por Lacan na vida da política institucional. Em diferentes momentos do seu texto, Miller cruza os fundamentos do ensino de Lacan com os acontecimentos institucionais atravessados por ele-mesmo.

    O "realismo de Lacan" (5) é endereçado ao Outro no sentido em que o Outro está incluido no ato. Desta maneira a legitimidade da escola de Lacan não começa "a partir do zero" (6). Tem aí no ato de Lacan que preside a fundação da sua escola o comparecimento do Outro.

    O programa de trabalho, legado por Lacan, nos convida a edificar uma escola que leva em conta este Outro num processo sucessivo de destituições identificatórias. Neste sentido me parece que o surgimento da Escola Una acolhe esta perspectiva de Lacan na medida em que ela é dissolvida a cada dois anos e relançada em seu novo funcionamento quando renovada a transferência para a psicanálise e por conseguinte, renovado o desejo do psicanalista, um por um.

    De uma outra maneira, a AMP situa-se numa orientação onde realisa o procedimento do "dispositivo passe" tanto na entrada como no final da análise anti-standard. A inseparabilidade entre a clínica e a política ccomparece nas incidências da nossa época quando cruzamos os resultados finais produzidos por este dispositivo. Neste horizonte, isolamos como cada um incarna o desejo do psicanalista. Ideal nemhum é desenhado neste horizonte.

    2) De qual tempo falamos ? Com Freud na "Interpretação dos sonhos" a questão do tempo se apresenta não muito bem desenvolvida. Enuncia-se da seguinte maneira a sua tese em que os termos do inconsciente e o tempo estão presentes: o inconsciente "ne connaît pas le temps". O inconsciente ignora o tempo quando o seu desejo, o desejo do inconsciente, é indestrutível. Logo ele se prolonga fora do tempo.

    Lacan se apropria desta tese freudiana sobre o tempo e o inconsciente para melhor isolar o estatuto lógico operante na cadeia significante. O tempo lógico é antes de tudo um modo de afirmação da certeza subjetiva. Esta certeza subjetiva tem uma estrutura de antecipação já que o sujeito é suposto na cadeia, "c’est-à-dire suspendu à l’Autre" (7). Desta maneira, existe uma função de tempo necessário para que o inconsciente esteja nesta cadeia. Se servindo deste tempo, o lógico, Lacan marcará uma outra maneira de repensar a temporalidade inerente ao sujeito.

    Lacan fez referência ao seu texto sobre o tempo lógico em contextos diferentes. Não podemos esquecer que quando Lacan introduz as categorias do tempo, do Outro e do sujeito, ele faz valer as escansões temporais como partes das operações do sujeito. É assim que aparece os termos de escansão, suspensão e corte que são regidos por uma lógica temporal.

    No seu curso "Les us du laps" Jacques-Alain Miller intervem no vivo da questão ligada a temporalidade da sessão quando retoma a relação entre o inconsciente e o tempo proposto por Freud. Ainda na primeira sessão do seu curso ele indica como Lacan apresenta e define o inconsciente.

    É curioso observar que Miller indica nesta lição do seu curso que a ética das conseqüências está presente no momento em que abordamos o inconsciente no seu advir. Ele marca uma diferença entre Freud e Lacan na definição que concerne ao inconsciente. Na sua leitura, ele nos mostra que é a partir da transferência que Lacan define o inconsciente. Definir o inconsciente a partir da transferência é relacioná-lo "com o tempo, com o tempo do seu deciframento" (8). Nestas condições "o inconsciente é relativo, é assunto de ética, ""est affaire d’éthique"", isto quer dizer que o inconsciente está sempre a vir" (9).

    O inconsciente abordado por Freud traz um saber no regime de um certo "a priori" onde ele se produz numa hora fixa, obedecendo leis. O inconsciente lido por Lacan postula a entrada do sujeito na sessão analítica enquanto suposto saber. Assim, o inconsciente como sujeito não obedece leis. Na sessão analítica este inconsciente aparece como lacunar. Vamos recorrer a um pequeno fragmento do primeiro sonho de Dora para ilustrar como se opera a interpretação do mesmo fragmento para Freud e para Lacan. Desta maneira e seguindo as pistas de Miller, vamos sublinhar o estatuto da transferência e do inconsciente para Freud e Lacan.

    Primeiramente, sabemos que Freud vai centrar esse caso nos dois sonhos de Dora e fazer dele um prolongamento direto da "Die Traumdeutung". O primeiro sonho trata-se de um sonho de repetição que desperta a curiosidade de Freud. "Uma casa estava em chamas conta-me Dora. Meu pai encontrava-se de pé ao lado da minha cama e me despertou. Vesti-me rapidamente. Mamãe quis ainda salvar sua caixa de jóias; mas Papai disse: "Não quero que eu e meus dois filhos sejamos queimados por causa da sua caixa de jóias. Descemos apressadamente as escadas, e logo que me encontrei fora da casa despertei" (10).

    Como é um sonho de repetição, Freud vai estabelecer uma ligação entre a cena do lago e o sonho. Dora tem esse sonho pela primeira vez na casa do Sr. K. No entanto, a causa imediata do sonho, o resto diurno, é um incidente que houve na véspera. É um episódio em que o Sr. K. entrava no seu quarto e ela o encontrava em posição de olhá-la. Então, para se defender, era preciso fechar o quarto a chave. Entretanto, não tinha chave porque o Sr. K. a tinha pegado. Dora se vestia "(...) então, durante todo aquele tempo, muito rapidamente" (11), informa Dora, por medo de ser surpreendida pelo Sr. K. enquanto se arrumava.

    Freud interpreta que no sonho a caixa de jóias é uma metáfora do sexo feminino. Dora desenvolve um certo temor das investidas do Sr.K. em relação à sua caixa de jóias. Então, o que está em jogo é sua caixa. "Esse homem está me perseguindo; ele quer forçar sua entrada no meu quarto. Minha Œcaixa de jóias está em perigo, e se alguma coisa acontecer será culpa de Papai" (12). Seu pai a deixara virar-se sozinha com o Sr. K.

    Assim, a interpretação de Freud pode ser articulada da seguinte maneira: a caixa de jóias é uma metáfora do sexo feminino, assim como a jóia é uma metáfora do sexo masculino. "(...) você tem ainda maior medo de si mesma, e da tentação de ceder a ele. Você confirma desse modo a intensidade de seu amor por ele" (13). Ela não queria abrir a porta do seu quarto, sua caixa de jóias, para servir à jóia do Sr. K. Evidencia-se aí que Freud opera a interpretação tamponando o que se apresenta como lacunar na manifestação do inconsciente.

    É uma interpretação em que, no horizonte, está o ato sexual. Ele acrescenta que "você está pronta a dar a Sr. K. o que sua esposa retira dele" (14). Ela protesta. Freud observa que ela não queria "aceitar esta parte da interpretação" (15).

    Em 1970, Lacan nos dá uma outra interpretação para marcar sua discordância de Freud. A interpretação de Lacan coloca-se como o contrário da interpretação de Freud num ponto preciso: Dora não se interessa pela jóia do Sr. K. Ela quer uma outra coisa que não é o órgão do Sr. K.

    Lacan nos dá a chave para compreender a posição do sujeito histérico. Este prefere o envelope a seu conteúdo, a caixa de jóias à jóia que aí viria se alojar. Que a jóia "vá aninhar-se em outro lugar, (...)" (16).

    Segundo Lacan, Freud se engana na medida em que sua interpretação envereda para o lado do Édipo. É neste contexto que ele vai fazer a crítica radical, dizendo que Freud toma o lugar do "saber que recolheu de todas essas bocas luminosas, Ana, Emmie, Dora, (...)" (17). E Lacan acrescenta que esse saber, por ser o Édipo, tem uma pretensão de verdade. Assim, Freud em sua interpretação representa esse saber.

    A posição freudiana em relação a Dora não é a do sujeito-suposto-saber. O lugar que Freud ocupa no manejo da transferência é a do sujeito que sabe e que fornece o pedaço que falta, a jóia, a sua analisanda. É uma posição transferencial que obedece as leis edípicas. Neste contexto, a prática da sessão analítica se inscreve como standard e ligada a uma temporalidade cronológica. A proposta lacaniana vai além da de Freud, pois ela se relaciona ao que está em jogo na posição do analista enquanto sujeito-suposto-saber. Esta proposta de prática da sessão leva em conta a ética das conseqüências atuante no manejo do inconsciente. O manejo do tempo de deciframento do inconsciente proposto por Lacan "tem conseqüências fundamentais sobre a posição do sujeito" (18).

    A política do tempo na sessão analítica é fundada no ato de Lacan quando este pratica uma temporalidade lógica inerente ao sujeito. O sujeito aqui, o da psicanálise, inclue o tempo. Foi pensando assim que Lacan pôde remover uma série de obstáculos no movimento do trabalho da transferência presente na caminhada de uma análise.


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    1. Miller, Jacques-Alain, "L’acte entre intention et conséquence", in Politique lacanienne, La Cause freudienne, n° 42, Paris, Navarin-Seuil, 1999.

    2. Ibid., p. 11.

    3. Kruger, Flory, "La séance analytique", in Ornicar ? digital, Revue électronique multilingue de psychanalyse, n° 121, 2000.

    4. Miller, Jacques-Alain, "L’acte entre intention et conséquence", op. cit., p. 14.

    5. Ibid., p. 14.

    6. Ibid., p. 14.

    7. Laurent, Éric, "Le temps de se faire à l’être", in Le temps fait symptôme, La Cause Freudienne, n° 26, Paris, Navarin-Seuil, 1994, p. 41.

    8. Miller, Jacques-Alain, "Les us du laps", Curso de Orientação lacanniana (1999/2000), aula inédita de 17 de março de 1999.

    9. Ibid.

    10. Freud, Sigmund, "Fragmento da análise de um caso de histeria", in Edição standard brasileira das obras completas, vol. VII, Rio, p. 61.

    11. Ibid., p. 64.

    12. Ibid., p. 66.

    13. Ibid., p. 67.

    14. Ibid., p. 67.

    15. Ibid., p. 68.

    16. Lacan, Jacques, O Seminário, livro XVII, O avesso da psicanálise, Rio, Jorge Zahar Editor, 1992, p. 90.

    17. Ibid., p. 92.

    18. Laurent, Éric, "Uma sessão orientada pelo Real", in Signos del 2000, Boletin informativo n° 2, Buenos Aires, octubre de 1999.