ANTROPOSMODERNO

O Obscuro objeto da pulsão
Clara Lúcia Inem




          Was man nicht erfliegen kann, muss man erhinken.
          Die Schrift sagt, es ist keine Sünde zu hinken.


    O presente trabalho parte de um breve histórico-conceitual da noção freudiana de pulsão, no intuito de desenvolver uma reflexão acerca da clínica das toxicomanias a partir desse conceito.
    Tomar a pulsão como instrumento para pensar as toxicomanias, conduz, inicialmente, ao aspecto econômico da metapsicologia, aquele que se dedica ao estudo quantitativo dos processos psíquicos, ou seja, ao fluxo das excitações e energia que circulam no psiquismo. Freud designa por “investimento” o processo através do qual a energia é empregada em uma determinada atividade psíquica. Essa operação inclui um objeto e uma representação concomitante. O aspecto econômico tem grande importância no que se refere à angústia, ao conceito de pulsão e à noção freudiana de prazer. Por esse viés, o fenômeno toxicomaníaco teria a função de preservar e regular a homeostase psíquica através do equilíbrio energético
    Dadas essas considerações iniciais, formula-se a proposta do presente artigo, a saber: entender, em termos de investimento pulsional, a particularidade do vínculo do toxicômano com a droga e o estatuto do objeto droga neste caso. Cabe, também, indagar se a droga pode ser objeto da pulsão, definido por Freud como indiferente e de natureza variável, e considerar que a toxicomania pode ser enfocada tendo como eixo a teoria das pulsões.

    Evidentemente, não se pretende aqui responder a todas as questões enunciadas, mas antes exercitar o método psicanalítico, colocando o sujeito em primeiro plano, indo além do nível meramente fenomenológico (primazia de erklären sobre verstehen): “[...]se a

    [ “Ao que não podemos chegar voando, temos de chegar manquejando (...). O Livro diz-nos que não é pecado claudicar.” Trata-se das últimas linhas de “Die beiden Gulden”, versão feita por Rückert de um dos Maqâmat, de al-Hariri. Freud citou esses versos no final do capítulo VII de Além do princípio do prazer (1920) e numa carta a Fliess, datada de 20 de outubro de 1895. (Carta 32).

    psicanálise situa-se do lado de erklären, é porque trata o real pela via do simbólico”. (Elia,1995:20)
    Entretanto, “algo no sujeito escapa à determinação simbólica, situando-se em seu mais-além, e é precisamente isto que permite ao sujeito ultrapassar os desígnios que recebe do Outro”. (ibid:20) Trata-se, portanto, de ir mais-além do fenômeno, condição essencial para enfocarmos a clínica da toxicomania.
    Nesse sentido, o que parece fundamental é pensar a relação do sujeito com a demanda do Outro, pois o recurso à droga parece ser um modo de resposta aos impasses do sujeito face à castração. Ao invés de um trabalho de simbolização, ou seja, frente à "exigência de trabalho feita ao psiquismo em decorrência de sua ligação com o corpo" (Freud, 1915), o sujeito responde com uma ação, ingerindo um “tóxico”; a intoxicação adquire, segundo Freud, a forma de uma “construção auxiliar” (Hilfsconstruktionen) capaz de atenuar o mal-estar (Freud, 1930:93)

    O circuito da Pulsão- algumas pontuações

    É à elaboração estóica de uma energética, sob a categoria de Ormé, que seria preciso remontar para elucidar o termo Trieb. Partindo da precisão técnica obtida no domínio da termodinâmica e da distinção feita por Breuer entre energia “tônica” e energia "livre", o conceito de pulsão atrairá o interesse de Freud enquanto energia própria da libido, distinta da pulsão do eu ou de conservação - como “pulsão sexual”. Essa sexualização de um tipo de pulsão encontrará seu primeiro fundamento na noção freudiana de “zona erógena”, o órgão “cuja excitação confere à pulsão um caráter sexual” (Studien aufgabe). (Kaufmann, 1996:437)
    A noção de pulsão aparece em 1905, nos "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade", diretamente ligada à sexualidade, à dualidade que vai caracterizar a primeira teoria das pulsões: autoconservação e sexualidade logo se desdobram; Freud subverte esta origem ao revelar a sexualidade infantil e a contingência tanto do objeto quanto do alvo sexual. Em 1915, consolida-se a idéia da sexualidade como paradigma da pulsão e Freud afirma que a pulsão é um Grundbegriff - conceito fundamental para psicanálise. Quanto ao eixo econômico, observa-se uma mudança na própria definição de pulsão, inicialmente pensada em relação à hipótese de que o aparelho psíquico se encontrava submetido ao princípio do prazer; essa seria a primeira lei do psiquismo. Posteriormente, Freud encontrará algo além desse princípio: “[...] impõe-se a nós a idéia de termos descoberto a pista de um caráter geral, não reconhecido até agora - ou que pelo menos não se fez ressaltar expressamente - das pulsões e talvez de toda a vida orgânica. Uma pulsão seria, pois, uma tendência própria do orgânico vivo à reconstituição de um estado anterior...” (Freud,1920:47)

    Os acréscimos ao texto inicial de 1905 e seu comentário de 1924 sobre a teoria das pulsões como a parte mais significativa, "mas também a menos avançada (unfertigste) da teoria psicanalítica” justificam a diversidade das linhas de pensamento segundo as quais se construiu o conceito.
    [...] A teoria das pulsões é, por assim dizer, nossa mitologia. As pulsões são seres míticos, grandiosos em sua indeterminação. Não podemos prescindir delas em nenhum momento do nosso trabalho, e ainda assim não estamos seguros de vê-las claramente nem por um instante (Freud,1933[1932])
    Como apontado anteriormente, no centro da conceituação aparece o problema da energia. As psiconeuroses devem ser atribuídas à força das pulsões sexuais. A energia da pulsão sexual constitui uma parte das forças que sustentam as manifestações patológicas, sendo a fonte mais importante de energia da neurose, caracterizando-se pela sua constância. Para Freud, portanto, a vida sexual se manifesta em grande parte por esses sintomas. A diferenciação dos sintomas, por sua vez, remete à noção de pulsão parcial:

    [...]Dentre as causas dos sintomas das psiconeuroses é preciso atribuir um papel importante às pulsões parciais, que formam em geral pares antagonistas e que já conhecemos como capazes de constituir novos fins: como as pulsões de ver e mostrar nos voyeurs e nos exibicionistas, a pulsão de crueldade em suas formas ativas e passivas. [...] É esse elemento de crueldade presente na libido que é causa dessa transformação de ódio em amor, de emoções ternas em movimentos hostis, que encontramos na sintomatologia de grande número de neuróticos e que forma, quase por inteiro, a sintomatologia da paranóia.”( Freud:1923:55-59)
    Essa distinção de dois grupos de pulsões originárias é uma mera construção auxiliar, que será conservada enquanto se mostrar útil; de todo modo, sua substituição não acarreta significativas mudanças nos resultados dos trabalhos, afirma Freud.
    Ressalte-se, portanto, que na história do desenvolvimento da psicanálise, o primeiro objeto de investigação são as psiconeuroses, denominadas por Freud “neuroses de transferência” (histeria e neurose obsessiva): “elas permitiram compreender que, na raiz de toda afecção desse gênero, devemos encontrar um conflito entre as reivindicações da sexualidade e a do eu.”(Freud:1915:130)

    A história do desenvolvimento das pulsões será inteiramente reformulada quando a oposição entre as pulsões do eu e as pulsões sexuais for substituída pela oposição entre as pulsões de vida e as pulsões de morte.
    Desde a época de seus primeiros trabalhos, Freud havia sublinhado o papel que cabia, na paranóia, aos deslocamentos do eu. A partir do narcisismo, o “destino das pulsões” foi inscrito não somente na dimensão prospectiva do desenvolvimento, mas na dimensão inversa de uma “regressão narcísica”.(op.cit:438).

    Retomando o primeiro dualismo pulsional proposto por Freud em “A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão” (1910), que opunha as pulsões sexuais às pulsões de autoconservação (ou pulsões do eu); trata-se de um “eu” como instância psíquica encarregada de garantir a conservação do organismo. Naturalmente, esta introdução do eu ao lado da autoconservação permite-nos compreender o caráter conflitivo em relação à sexualidade, especialmente no que se refere ao recalque. Nesse momento da teoria freudiana, a pulsão sexual nasce apoiada nas funções postas à serviço da autoconservação da vida, mas logo se torna independente (Gurfinkel, 1996:100).
    A inegável oposição entre as pulsões que servem à sexualidade, à obtenção do prazer sexual, e as outras, que têm por fim a autoconservação, as pulsões do eu, é de suma importância para Freud:

    [...] De uma maneira geral, são os mesmos órgãos e os mesmos sistemas de órgãos que estão à disposição das pulsões sexuais e das pulsões do eu. O prazer sexual não está ligado simplesmente à função dos órgãos genitais; a boca serve tanto para o beijo quanto para comer e para comunicar a fala, os olhos não percebem somente as modificações do mundo externo importantes para conservação da vida, mas também aquelas propriedades dos objetos que os alçam à categoria de objetos de escolha amorosa, isto é, seus atrativos.(Freud, 1915)

    Entretanto, nesse estágio da teoria freudiana, observa-se um paradoxo: “são as pulsões de autoconservação que se apóiam nas pulsões sexuais e não o contrário, a especificidade do humano implica precisamente que o funcional seja subvertido de modo constante pelo pulsional”. (Jorge, 2000:48)
    Freud refere-se à “compulsão à repetição” como fenômeno observado no tratamento psicanalítico, sugerindo ser ela derivada da natureza mais íntima das pulsões, suficientemente poderosa para desprezar o princípio do prazer. Embora ainda não faça alusão à pulsão de morte, irá conceituá-la a partir da "compulsão à repetição". Ele demonstra a dicotomia entre pulsão de vida e pulsão de morte, dicotomia que vai ser melhor elaborada em " O Eu e o isso", artigo em que Freud mantém a idéia de que “[...] as pulsões de morte são, por sua natureza, mudas, e que o clamor da vida procede, na maior parte, de Eros.” (Freud,1923:62)
    Mais adiante, Freud afirma que “o princípio do prazer parece na realidade servir às pulsões de morte”. Ele levanta a hipótese de um masoquismo primário vinculado à noção de pulsão de morte. A pulsão de morte representaria a tendência fundamental de todo ser vivo a retornar ao estado inorgânico. (Freud,1929:55) A partir dessa concepção, consagra-se que

    [...] a sede da tensão que o aparelho psíquico é convocado a reduzir não é mais o corpo em sua dependência sobretudo da zona erógena mas, o vivente enquanto tal.[...] A oposição entre a pulsão sexual e o eu é sucedida pela oposição entre pulsão de morte e pulsão de vida, na medida em que esta última consagra a tensão oriunda do advento da organização em sua relação retrospectiva com o inanimado.(op.cit:440)

    Em “Subversão do sujeito”, Lacan afirma que é preciso “reconhecer na metáfora do retorno ao inanimado, do qual Freud reveste todo corpo vivo, a margem para além da vida que a linguagem assegura ao ser pelo fato de ele falar”. (Lacan,1998.:817; apud Jorge, in.op.cit:62)
    A noção de pulsão vem ao encontro do esboço de uma sistematização estrutural no pensamento de Lacan: trata-se simplesmente, neste caso, da assunção, pelo sujeito falante, da responsabilidade pelo organismo. Ou, na interpretação freudiana, da definição do conceito de pulsão “medida de trabalho exigido pelo aparelho psíquico em razão de sua ligação com o corpo”.
    É Lacan que, articulando as representações freudianas da pulsão, atribui uma característica de "borda" a essa "superfície" do corpo onde figuram as zonas erógenas,. Assim, estabelece-se uma conexão entre os aportes concernentes à concepção de pulsão., a primeira tópica tomando a zona erógena como fonte da pulsão sexual e a segunda submetendo a pulsão ao princípio da repetição. Para Lacan, de um registro para o outro, a estrutura de borda da zona erógena " se prolonga no trajeto em círculo do processo, fadado a contornar seu objeto sem jamais com ele se satisfazer, o que exprime que esse objeto pertence à esfera do Outro, em conformidade com a constituição antitética dos pares pulsionais de Freud." (op.cit:441)

    A pulsão, pelo fato de se situar nos registros do simbólico e do real,“é um conceito-chave que possibilita, através da linguagem, a operação do dispositivo analítico sobre o gozo. No registro do simbólico da pulsão, o sujeito em fading se encontra em conexão e disjunção com a demanda do Outro”. (Quinet, 2000:48)
    É, portanto, graças à introdução do Outro a partir da linguagem que a estrutura da pulsão aparece. Ela não se completa senão em sua forma invertida, em sua forma de retorno, que é a pulsão ativa.. A pulsão é, antes de mais nada, a relação significante. Nessa perspectiva, pode-se, de fato, articular as representações freudianas da pulsão sexual/pulsão de morte, estando o essencial da construção assegurado pela representação da cadeia significante, a contornar o objeto.

    Além disso, pode-se depreender em que medida o despertar das pulsões produzirá atração e temor diante do real de um gozo desconhecido que se manifesta à revelia do sujeito, mas também pelas fantasias incestuosas que suscita. Para Lacan, o real do sexo é efeito da linguagem, uma vez que todo real é efeito do simbólico. Um real que se apresenta como impossível, como obstáculo ao princípio do prazer: “O real se distingue por sua separação do campo do princípio do prazer, por sua dessexualização.” (Lacan,Op.cit:159).
    Nesse sentido, nenhum objeto, nenhuma necessidade pode satisfazer a pulsão:
    [...] É claro que aqueles com quem temos que tratar, os pacientes, não se satisfazem, como se diz, com o que são. E, no entanto, sabemos que tudo que eles são, tudo o que eles vivem, mesmo seus sintomas, dependem da satisfação. Eles satisfazem algo que vai sem dúvida ao encontro daquilo com o que eles poderiam satisfazer-se, ou talvez melhor, eles dão satisfação a alguma coisa. Eles não se contentam com seu estado, mas, estando nesse estado tão pouco contentador, eles se contentam assim mesmo. Toda a questão é saber o que é esse se que está aí contentado.(Lacan,1964:158).

    Partindo do princípio de que o sintoma é a experiência clínica do real na estrutura do sujeito e que o princípio do prazer se caracteriza pela impossibilidade de satisfação, “[...] há que se distinguir o Not e o Bedürfnis, a necessidade e a exigência pulsional - é justamente porque nenhum objeto, de nenhum Not, necessidade, pode satisfazer a pulsão, [...] essa boca que se abre no registro da pulsão - não é pelo alimento que ela se satisfaz, é pelo prazer da boca”. (Ibid:160)
    A Demanda oral, como se sabe, é o protótipo da demanda ao Outro. A psicanálise postula que a estrutura do sujeito se constitui a partir de um "furo". “Esse furo corresponde ao conceito freudiano de objeto perdido, o que significa dizer que o objeto de satisfação pulsional está desde sempre perdido, o que possibilita o advento do desejo, por definição, insatisfeito.”(op.cit:87)
    Nesse sentido, a demanda se constitui a partir do Outro primordial que "traz o objeto que satisfaz a necessidade". (ibid:88) É preciso, entretanto, que esse Outro primordial atribua uma significação ao choro e/ou grito daquele que está, no nível da necessidade, com fome. É preciso que o choro do bebê - que tem a função de descarregar um "plus" de energia que gera desconsolo em virtude do princípio do prazer - seja interpretado pelo Outro primordial (a mãe) como apelo, pedido, transformando, assim, a satisfação da necessidade em demanda. O Outro interpreta o choro do bebê que recebe sua própria mensagem invertida s(A)- significado do Outro. A partir daí algo se instala para além da necessidade, a partir do Outro, condição para se instituir o imaginário (relação de a- a').

    É nesse sentido que a demanda oral é o protótipo da demanda ao Outro e que se constitui o sujeito pulsional. A pulsão é, portanto, da ordem da demanda; o significante se inscreve no corpo. A demanda está no apelo que o sujeito faz em busca de um complemento que é o objeto de satisfação. E o desejo "é o vetor que se desloca de um significante (S1), representado pelo traço da excitação da necessidade de comer (a fome), para outro significante (S2), representado pelo traço do objeto que a satisfaz (o seio): S _d__ S2." (ibid:88 )(atenção: no lugar do traço é uma seta!)
    Para Lacan, a pulsão é fruto da demanda do Outro da linguagem, em seu precoce efeito sobre o advir do sujeito; a pulsão é uma montagem: o "eco no corpo do fato que há um dizer". (Lacan,1975, apud. in. op.cit:50)

    A assertiva de que a pulsão é sempre articulada pela linguagem "só conhece uma exceção, a pulsão de morte, que Freud considerou irrepresentável como uma dimensão pulsional". (op.cit:101)

    Em “O Estranho”(1919), Freud avalia que o princípio do prazer parece na verdade servir à pulsão de morte: “[...] é possível reconhecer na mente inconsciente, a predominância de uma “compulsão à repetição”, procedente das moções pulsionais e provavelmente inerente à própria natureza das pulsões- uma compulsão poderosa o bastante para prevalecer sobre o princípio do prazer” Esta noção foi introduzida por Freud em 1920 no artigo "Além do princípio do prazer", a partir da observação clínica dos fenômenos de repetição (compulsão à repetição), fenômenos que não se deixam reduzir à busca de uma satisfação libidinal ou tentativa de dominar as experiências desagradáveis. A noção de pulsão de morte adquire importância na experiência psicanalítica na confluência com as noções de ambivalência, agressividade, sadismo e masoquismo. Desde o início, Freud considerou impossível deduzir o ódio, do ponto de vista metapsicológico, das pulsões sexuais. Inicialmente , em "Pulsões e seus destinos", o sadismo e o ódio são relacionados às pulsões do ego. Após a "Introdução ao narcisismo", como dito anteriormente, Freud tende a apagar a distinção entre pulsões sexuais e pulsões do ego, reduzindo as modalidades da libido a duas espécies.

    O caráter especulativo da noção de pulsão de morte é confirmado pelo próprio Freud quando este ressalta que nenhuma experiência nos permite apreender sua ação em estado puro, sendo que a pulsão de morte se revela mais claramente quando se encontra fusionada à pulsão de vida, especialmente sob a forma da pulsão de agressão. Esta, por sua vez, se compõe com a pulsão de amor. Para se falar de amor é preciso a relação com o Outro. O amor é uma relação imaginária, é a relação propriamente de demanda ao Outro, demanda ao objeto do Outro. O que faz um objeto se tornar objeto de amor é o agalma, a suposição de qu o objeto contém algo precioso no seu interior, na sua essência. Esse objeto contém um brilho que fascina, que está contido no sileno, mas que, ao se abrir, contém nada. Esse é o objeto que se supõe estar no sujeito suposto saber - o analista, na vertente imaginária da transferência. Em outro nível, o objeto é complemento do desejo, mas o aspecto metonímico do desejo mostra que o objeto de amor é "furado", é pura falta. É essa falta que remete o sujeito à castração, ao objeto perdido, e que o toxicômano busca velar com a droga.

    O curto-circuito da pulsão: O Gozo


    Escrito por Freud em 1938, "A divisão do eu no processo de defesa" trata basicamente do modo como o eu se comporta frente a uma poderosa exigência pulsional e do lugar onde surge um conflito devido à proibição frente à realidade, conservando a satisfação. Diante do conflito, com o auxílio de certos mecanismos, o sujeito responde com reações contrárias e simultâneas: rejeita a realidade, recusando qualquer proibição e, ao mesmo tempo, "reconhece o perigo da realidade e assume o medo desse perigo com um sintoma patológico".

    Freud revela surpresa por tratar-se de um afastamento da realidade - procedimento antes reservado aos casos de psicose. Anteriormente, em 1924, no artigo "Perda da realidade na neurose e na psicose", admitira que "[...] toda neurose perturba de algum modo a relação do paciente com a realidade, servindo-lhe de meio de se afastar da realidade e que, em suas formas mais graves, significa concretamente uma fuga da vida real". O preço a ser pago é o sintoma, o surgimento de "uma fenda no eu, a qual nunca se cura, mas aumenta à medida em que o tempo passa". Ele continua: "[...] em todo o vaivém entre rejeição e reconhecimento, fosse todavia a castração que encontrasse a expressão mais clara"[...], as duas reações contrárias ao conflito persistem como ponto central de uma divisão (Spaltung) do eu". No caso do fenômeno toxicomaníaco, trata-se de um sujeito que se nos apresenta unificado por um modo de gozo específico e que parece não dividido por um conflito entre os ideais do eu e as exigências pulsionais.

    Com base em conceitos de "energia psíquica" e "quantidades de excitação", Freud escreve que "o resultado depende de qual das duas pode se apoderar com maior intensidade"; a partir do momento em que temos duas energias psíquicas - uma que afasta o eu da realidade e outra que a leva em conta. No caso de a primeira ser a mais forte, existiria uma pré-condição para a psicose. No caso de ser a segunda, haveria "uma cura aparente do distúrbio delirante". Este distúrbio se retira para o inconsciente. É o caso de Schereber, em que Freud constata que o delírio já existia há algum tempo, antes da irrupção manifesta, sob a forma da idéia de que seria bom ser uma mulher na cópula.

    Retomo aqui algumas questões anteriormente levantadas em artigo de minha autoria, publicado no livro Autismo e esquizofrenia na clínica da esquize. Alberti,S.(org), Rio de Janeiro,Marca d’Ägua Livraria e

    De certo, o que Freud nos mostra é que uma característica comum a estas estruturas se apresenta no eu. A negação de percepções que levam ao sujeito o conhecimento de certas exigências vindas da realidade revela-se como "tentativas incompletas de desligamento da realidade. A negação é sempre suplementada por um reconhecimento". No caso do fenômeno toxicomaníaco, o sujeito busca um suplemento que lhe dê a ilusão de completude, evitando entrar em contato com a fenda que, segundo Freud, nunca se cura; ao contrário, aumenta à medida em que o tempo passa.

    Na obra de Lacan, apesar das poucas referências acerca da toxicomania, a frase "a droga é a única forma de romper o matrimônio do corpo com o pequeno-pipi" é um norte, uma vez que marca uma distinção e nos mostra que é um modo de ruptura com o gozo fálico. Ao exclui-lo, supõe um objeto que não inclui a castração. A ruptura com o pequeno-pipi tem como conseqüência o fato de que não se pode gozar sem o fantasma e que podemos pensar na ruptura com o Nome-do-Pai nesse fenômeno, sem que essa ruptura implique em psicose. (cf. Laurent,1994) O "casamento com o pequeno- pipi" a que se refere Lacan evoca outra dimensão do gozo: a dimensão do corpo. Alguns estudiosos do fenômeno toxicomaníaco consideram que se trata de um investimento auto-erótico, sob a forma de um curto-circuito pulsional. Conforme Lacan (Conferência de Genebra), o auto-erotismo é o que há de mais hetero. (Lacan, 1975).

    A experiência clínica permite diferenciar duas vertentes no gozo do "dito" toxicômano. De um lado, ele se oferece como objeto para o gozo do Outro a fim de completar a falta que aparece como insuportável: ele se faz o produto do gozo do Outro. Por outro, ele usa a droga como aquilo que o faz subtrair-se ao gozo do Outro. Ele não goza da droga, mas do fato de desligar-se do gozo do Outro.

    Freud utiliza o termo Genuss, segundo o uso freqüente na língua alemã, para designar o que é experimentado graças à representação estética. Em 1905, no texto "Os chistes e sua relação com o inconsciente", ele encaminha a sua primeira conceitualização de gozo: "a comunicação a uma outra pessoa proporciona o gozo"; e, algumas linhas abaixo: "recupera-se um fragmento de possibilidade de gozo (ein Stück der Genussmöglichkeit) que faltava em decorrência da falta de novidade". Tudo o que o sujeito pode fazer é recuperar "um fragmento de possibilidade de gozo". Assim, desde 1905 estão formuladas as premissas do que seria explicitado em 1920 em "Para além do princípio do prazer", no capítulo sobre a repetição. A descoberta freudiana fundamental é que originalmente o sujeito, em relação ao que o conduz a algum declínio de gozo, não poderia se manifestar senão como repetição, e repetição inconsciente.

    Livraria e Editora,1999.p.131-145.

    Ora, não podemos partir de nenhum traço significante para fundar a relação sexual. Para sustentar o gozo sexual como absoluto, Freud recorre a um mito: só o pai da horda "se reserva para si mesmo um livre gozo sexual (frein Sexualgenuss) e permanece, por isso, sem vínculo".

    Retomando em "Psicologia das massas e análise do eu" (1920) o que havia desenvolvido em "Totem e tabu" (1913), Freud situa o pai da horda como aquele que desfruta de todas as mulheres. Por isso, esse pai originário (Urvater) obriga todos os filhos à abstinência. Esse tempo originário do mito freudiano é um tempo antes de Édipo, um tempo em que o gozo é absoluto, pois não se distingue da lei. Ao matar o pai, e ao incorporá-lo, os filhos inauguram um tempo histórico: o tempo de Édipo, o herói trágico. Este perfaz uma repetição tendenciosa do ato e doravante o gozo torna-se distinto da lei, pois gozar da mãe passa a ser interditado. Assim, o mito ocorre no lugar em que, no sistema simbólico do sujeito, o gozo sexual não é simbolizado nem simbolizável. Ele é Real. Nesse sentido, não há sujeito do gozo.

    Em 1960, Lacan no Seminário, livro 7: a ética da psicanálise, assim define o campo do gozo: "tudo aquilo que diz respeito à distribuição do prazer no corpo". A partir de "projeto de uma psicologia para neurólogos" (Freud, 1895), Lacan discerne o limite que marcava o intolerável do vazio central, da Coisa (das Ding) assexuada, vacúolo do gozo. O fato desse vacúolo ser uma borda "êxtima" torna possível que um gozo de borda seja equivalente ao gozo sexual, borda dos orifícios que cercam o objeto a, que a pulsão, em sua montagem, contorna. Sua máxima "não há relação sexual" funcionará, a partir de 1969, como uma chamada à permanente ausência do significante sexual. A partir daí, as relações do gozo, do Outro e do objeto a serão reelaboradas.

    Dizer que "não há relação sexual" é situar o Outro como lugar do Urverdrängung, do recalcamento originário. O Outro é situado como lugar da fala - é aí que o inconsciente é estruturado como linguagem.

    Em 1968, retornando a Freud em "Os chistes e sua relação com o inconsciente", Lacan situa o objeto a não somente como objeto causa do desejo, mas também como objeto perdido na relação do gozo com o saber. É a partir da leitura de "O capital", de Marx, que Lacan estabelece uma homologia entre a mais-valia, tal como o filósofo alemão a define, e o novo nome do objeto a: mais-de-gozar.

    Uma vez que não há significante do gozo sexual, deduz-se que o gozo é fálico. Ele é gozo do que vem no lugar, o que substitui: gozo da fala, fora do corpo. No nível desse gozo não há saber no Outro, mas, ao contrário, uma impossibilidade de atingir o saber desse gozo, já que não se poderia saber senão do lugar dessa falha. Deduz-se que esse saber, que não se sabe, que está no real, pode, no entanto, resultar desse traço escrito e através disso ter acesso a uma possibilidade de objetivação.

    Essa é a aposta de Lacan na escrita topológica da nodalidade. É ele quem propõe um retorno à leitura de Freud para resgatar seus conceitos fundamentais e restaurar a importância fundadora da palavra tanto na condução da cura - "A psicanálise só tem um meio: a palavra do paciente" - quanto na destinação da ascese subjetiva do enunciado à enunciação: "o mais além ao qual somos reenviados é sempre outra palavra, mais profunda [...] é ao ato mesmo da palavra enquanto tal que somos reenviados."(Lacan,1953)

    Ora, o fenômeno toxicomaníaco rechaça a importância fundadora da palavra. Trata-se do "fazer em detrimento do dizer", obscurecendo a questão diagnóstica, visto que o sujeito se coloca como um "ser puro de gozo".

    Sabe-se que o gozo absoluto não se inscreve na estrutura psíquica; em seu lugar, a angústia é o afeto por excelência que, em sua proximidade de das Ding, coloca o sujeito frente ao real. Seguindo esse raciocínio, "a teoria das pulsões pode ser melhor compreendida se observarmos enquanto as pulsões sexuais têm como objeto o objeto a com suas roupagens imaginárias, i(a), a pulsão de morte tem como objeto das Ding." (Op.cit:147-149)

    A pulsão de morte, segundo Freud, opera em silêncio, só se manifesta na ocorrência do que denominou "desfusão pulsional":

    [...]Nos processos acentuadamente patológicos, como por exemplo, nas toxicomanias graves, nos quais o sujeito se empenha na obtenção do gozo absoluto a qualquer preço, sem a mediação dos processos sexuais. (op.cit:149)

    Certamente, Lacan toma como ponto de partida o mal-estar na civilização na sua exigência de renúncia à satisfação pulsional (Triebversagung) para enfocar a renúncia ao gozo e o mais-de-gozar inerente ao processo civilizatório. A hipótese freudiana que coloca a intoxicação como um método eficaz, atenuante do gozo, que afeta o sujeito em sua dor de existir, foi sem sombra de dúvida considerada por Lacan.

    A solução encontrada na toxicomania de se afastar dos efeitos do Outro e de sua demanda tem uma peculiaridade que permite compreender as razões pelas quais o sujeito em geral não se dispõe a endereçar ao analista, a demandar uma análise. Trata-se, segundo Lecoeur, de "uma patologia do ato, que se traduz por uma contestação diante das exigências do Outro. Há, portanto, o Outro, que impõe uma lei e torna o sujeito responsável pela sua posição de sujeito". (Lecoeur,1992:14) É precisamente a dificuldade diante das mediações do Outro simbólico que torna o trabalho da transferência literalmente laborioso. O que se observa na clínica é que o "toxicômano" se empenha em evitar a castração e a ordem fálica, que orienta o desejo.

    Nesse sentido, a droga torna-se objeto de necessidade: "a satisfação não aceita nem prazos, nem substituição de objetos. A falta-a-ser não parece provocada por um objeto não nomeável e irrecuperável, mas por um artifício, que, sob o invólucro do objeto da demanda, mascara o sujeito do desejo". (ibid:16)

    Considerando que a pulsão impõe uma exigência de trabalho ao aparelho psíquico, uma pressão, poderíamos pensar que, no caso da toxicomania, haveria "uma radicalização da pressão (Drang)que se manifestaria sob a forma de uma de irrupção compulsiva, momento de puro acontecimento onde não há palavras ?" (op.cit:102)

    Diante dessa indagação, permito-me aqui tecer algumas considerações. Pulsão não é impulso (Trieb não é Drang), conforme Lacan no Seminário 11, e tampouco, tomando por base a noção freudiana, não se trata de uma necessidade tal como se manifesta no organismo. O Reiz concernente à pulsão é diferente de qualquer estimulação proveniente do mundo exterior, é um Reiz interno. A pulsão é uma força constante. A constância do impulso "proíbe qualquer assimilação da pulsão a uma função biológica, a qual tem sempre um ritmo" (Lacan,1964:154).

    Quanto ao alvo da pulsão - busca da satisfação - e considerando com Freud que o alvo sexual é "o ato ao qual a pulsão impulsiona" sob o mandato do princípio do prazer, como se coloca o alvo da pulsão na experiência toxicomaníaca? (op.cit:102) Podemos continuar seguindo esse entendimento e pensar que "o sujeito busca satisfação no objeto droga, mas não se pode reduzir, embora se trate na fenomenologia do ato de drogar-se, a busca de uma satisfação pela incorporação de uma substância ao organismo" (op.cit:104). A meu ver, não se pode reduzir dessa maneira o pulsional. Embora o alvo da pulsão seja a satisfação, observa-se no fenômeno toxicomaníaco uma "compulsão à repetição", sugerindo que essa "compulsão" como (nos) afirma Freud, é "derivada de natureza mais íntima das pulsões, suficientemente poderosa para desprezar o princípio do prazer". ( Freud,1919: 297)

    Pode-se dizer que essa satisfação alcançada pelas vias do desprazer é a lei do prazer. Lacan argumenta que, por essa espécie de satisfação, "eles se fazem sofrer demais". Então não se pode dizer que o alvo não é atingido quanto à satisfação, "[...] é no nível da pulsão que o estado de satisfação deve ser modificado." (ibid.) Nesse sentido, a satisfação da pulsão é paradoxal e coloca o sujeito frente ao impossível - seu caminho "passa entre duas muralhas do impossível".(Ibid:158).

    Pensar a droga enquanto objeto da pulsão, como querem alguns autores, mostra-se insuficiente e problemático, pois coloca em questão o próprio objeto da pulsão, cuja definição na obra de Freud sofre uma modificação nem um pouco negligenciável.Para Freud,portanto, nenhum objeto, nenhuma necessidade pode satisfazer a pulsão., é o que ele desenvolve desde o "Três ensaios acerca da teoria da sexualidade": é precisamente porque nenhum objeto pode satisfazer a pulsão é que, em última instância, este objeto da pulsão não tem nenhuma importância, resulta indiferente e de natureza totalmente variável. (Freud,1905). Se Freud pontua que o objeto da pulsão não tem nenhuma importância, afirma Lacan, no Seminário 11:

    [...] é porque o seio deve ser revisado por inteiro quanto à sua função de objeto a. A esse seio, na sua função de objeto, de objeto a causa do desejo - devemos dar uma função tal que pudéssemos dizer seu lugar na satisfação da pulsão. A melhor fórmula nos parece ser esta - que a pulsão o contorna. (op.cit:160).

    Concordamos com Melmann, quando assinala que a característica do objeto do toxicômano é a de não ser da ordem do semblante; se ele visa efetivamente o outro enquanto corpo para assegurar-se de seu próprio gozo, esse objeto só pode ser real. Por esse raciocínio, "o toxicômano identifica-se com seu objeto. Ou seja, ele não pode ter outro ideal que a posição de a, ele mesmo como marginalizado". (Melmann,1992:79)

    Qual seria, então, o objeto próprio para assegurar o gozo do toxicômano? Melmann o situa "no desfile de seus próprios pensamentos tomados em curso aleatório, quer dizer, liberados da repetição. O tóxico é o meio para isso." (Ibid:119) Trata-se do fenômeno toxicomaníaco de auto-erotismo, cuja presença é incentivada em nosso tempo. O lucro desta incitação à dependência reverte para os laboratórios farmacêuticos. Os produtos de síntese, tais como benzodiazepínicos, revelam-se eficazes contra a dor de existir. E o toxicômano pode, enfim, se apoiar na medicina, "ele serve-se da panacéia sem falsos constrangimentos".(Ibid:120) Melmann vai ainda mais longe em suas considerações:

    [...] a dependência faz parte da constituição do sujeito e cada um se encontra, com efeito, em estado de adição em relação à instância subjetiva que representa o falo, cuja falta provoca angústia quando é ocasional e psicose quando é definitiva. A angústia em relação à falta é muito próxima daquela do toxicômano em estado de falta e pode servir, como a dele, para alimentar um gozo. A diferença fundamental é que esta instancia fálica é primordialmente simbólica e imaginária, enquanto a dependência toxicomaníaca é real. (Ibid:121)

    Depreende-se que, no caso da toxicomania, o objeto é real e não semblante e, ao contrário do que se pensa, é a falta que é celebrada, "a angústia ligada ao estado de falta é, sem dúvida nenhuma, o tempo forte do vivido toxicomaníaco" (Ibid:121). Esse paradoxo merece ser destacado:


    [...] se a absorção do produto provoca apaziguamento e propicia também um 'retorno ao estado normal"- como se exprime o drogado- o tempo de gozo, da tensão própria à demanda e ao desejo suscitados por um real é justamente o da falta: gozo da angústia ligado ao caráter aleatório do reencontro, sempre incerto, mesmo que seja em relação à qualidade do produto e ao fato de que o re-encontro pode bascular na dor ou no desamparo físico com sensação de morte eminente. O estado de falta pode ser assim buscado porque é o estado do gozo.(Ibid:122)


    Para Lacan, o inconsciente é estruturado como linguagem; portanto, pode-se dizer que a cura analítica se processa através da palavra, Ora, ingerir uma substância repetitivamente é uma prática que age diretamente sobre o corpo. Se o sujeito toxicômano está no universo da linguagem, como todo sujeito, a droga pode jogar como significante; essa prática drogadictiva, enquanto tal, curto-circuita o campo do dizer. (Soler,1996:26) Nesse sentido, a toxicomania é uma forma de não responder ao Che Vuoi? (O que o Outro quer de mim?); a análise , ao contrário, é o dispositivo onde essa pergunta pode ser formulada.

    Conclui-se com Freud que, em relação ao objeto da pulsão, ele não tem nenhuma importância, ele é totalmente indiferente, e com Lacan, que o circuito pulsional contorna o objeto, enquanto elemento faltoso. Trata-se, portanto, na toxicomania, de um objeto real, mas, ao mesmo tempo, obscuro.



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