ANTROPOSMODERNO



    INTRODUÇÃO

    Édipo: Enigmas! Sempre enigmas!

    Tirésias: Então não és aquele que decifra qualquer enigma?(1)

    O objeto deste artigo é a notória tragédia de autoria de William Shakespeare, Hamlet, o príncipe da Dinamarca, e as construções psicanalíticas que este provocou em Sigmund Freud. Abrimos, citando acima Édipo, visto ser a este que Freud, reiteradamente, se referenciará, quando da(s) análise(s) de Hamlet.

    No campo da psicanálise, outras abordagens a Hamlet foram empreendidas, dentre as quais destacamos a do contemporâneo, colaborador e biógrafo de Freud, Ernest Jones, Hamlet e o complexo de Édipo(2); na França, Jacques Lacan, que em seu seminário de 1958/59, intitulado O desejo e sua interpretação, tratou do tema hamletiano (do qual um excerto foi publicado no Brasil como Hamlet por Lacan(3); no Chile, de Felipe Pimstein, Hamlet, anatomia de la ambigüedad(4), em que o autor considera que o diagnóstico de 'abulia específica' não resolve a antinomia hamletiana e opina que Hamlet sofre de melancolia, evidentemente orientado pela abordagem de Melanie Klein; e, no Brasil, o livro de Eustáchio e Clara Helena Portella Nunes, Freud e Shakespeare(5), onde entre muitos dos personagens de Shakespeare, também trabalham Hamlet emuma perspectiva freudiana; e o de Hórus Vital Brasil, que, também, em seu Dois ensaios entre psicanálise e literatura(6), realiza uma análise de Hamlet de um ponto de vista psicanalítico.

    Em nossas pesquisas bibliográficas, para este trabalho, também nos defrontamos com as obras de M. A. A. J. A. Waldock, Hamlet - a study in a critical method (7), para quem "a play is not a mine of secret motives" (8), e a hesitação em Hamlet é devida ao fato de que Hamlet "fears that if he murders his uncle it may be, deep in his heart, for his own ends. So, hedelays."(9); de Dyson Wood, Hamlet from a psychological point of view(10), onde o autor considera que o conflito em Hamlet é devido a uma juvenil e passageira "reflective indecision"(11); de Margarita Quijano, Hamlet y sus críticos(12), onde a autora decide que a indecisão de Hamlet em cumprir o mandato de seu pai "no es uno de los temas de la obra" (13); e a interessante e enciclopédica compilação realizada por Claude Williamson, Readings on the character of Hamlet(14), na qual são reunidos mais de trezentos textos críticos, dos mais diversos autores, sobre Hamlet, que abrangem o período de 1661 a 1947.

    Pensamos que o Príncipe Hamlet, ao lado do Rei Édipo e dos Irmãos Karamassovi (não incluindo Fausto, por este estar referido a outras questões), são os personagens da literatura que mais importância têm, com respeito à concepção edípica, na obra freudiana; pois como o próprio Freud aprecia,


    Dificilmente pode dever-se ao acaso que três das obras-primas da literatura de todos os tempos 3&Mac218;4 Édipo Rei, de Sófocles; Hamlet, de Shakespeare; e os Irmãos Karamassovi, de Dostoievski 3&Mac218;4 tratem todas do mesmo assunto, o parricídio. Em todas as três, ademais, o motivo para a ação, a rivalidade sexual por uma mulher, é posto a nú.(15)


    Neste trabalho, em função da invasão da teoria psicanalítica nas mais variadas áreas de produções humanas, buscaremos ver o alcance possível da chamada 'psicanálise aplicada', da 'psicanálise em extensão', ver até onde é possível se ir com a análise psicanalítica de uma obra literária. Pois, como Freud coloca, "desde a época em que foi escrita A interpretação de sonhos, a psicanálise deixou de ser um assunto puramente médico."(16)

    NO DIVÃ DE FREUD

    ...o conflito em Hamlet está tão eficazmente oculto que coube a mim desenterrá-lo.(17)

    A primeira referência que temos de Freud a Hamlet, em um contexto teórico, é encontrada em uma carta, de 15 de outubro de 1897, endereçada a Fliess. Nesse momento Freud está em plena 'auto-análise' (com Fliess no lugar do analista), e, em meio a miríade de idéias que estavam a lhe surgir, diz a este que "um único pensamento de valor genérico revelou-se"(18), pensamento este que diz respeito ao, posteriormente denominado 3&Mac218;4 logo após suas conferências nos Estados Unidos na Clark University, quando é então chamado por "complexo nuclear de cada neurose", por "complexo central" e por "complexo do incesto"(19) 3&Mac218;4 como "complexo de Édipo"(20). Freud, na carta citada, coloca que "descobri, também em meu próprio caso, [o fenômeno de] me apaixonar por mamãe e ter ciúmes de papai, e agora o considero um acontecimento universal do início da infância."(21)

    Esse pensamento referente à questão edípica já havia se esboçado, cinco meses antes, em um rascunho anexo a uma outra carta endereçada também a Fliess em 31 de maio de 1897, quando Freud aponta "sobre os impulsos hostis contra os pais (o desejo de que morram)"(22), colocando que, "ao que parece, é como se esse desejo de morte se voltasse, nos filhos, contra o pai e, nas filhas contra a mãe."(23)

    Vemos que essas idéias quanto ao desejo de morte parental precederam a queda da sedução criminal como fator etiológico específico da histeria(24), como enunciada na carta, quatro meses após, em 21 de setembro de 1897, na qual Freud diz a Fliess que "não acredito mais em minha neurótica"(25). Mas a correlação dessas idéias com Oedipus Rex e com Hamlet, como dissemos no início, surge menos de um mês depois, na carta de 15 de outubro de 1897. Quanto ao fascínio, ao poder de atração da tragédia de Édipo, coloca Freud que

    (...) a lenda grega capta uma compulsão que todos reconhecem, pois cada um pressente sua existência em si mesmo. Cada pessoa da platéia foi, um dia, um Édipo em potencial na fantasia, e cada uma recua, horrorizada, diante da realização de sonho ali transplantada para a realidade, com toda a carga de recalcamento que separa seu estado infantil do estado atual.(26)

    Essa compulsão que todos reconhecem na tragédia do destino de Édipo, Freud também a vislumbra no destino, não menos trágico, de Hamlet. Como diz Freud,

    A partir da compreensão dessa tragédia do destino só restava um passo para compreender uma tragédia de caráter - Hamlet, objeto de admiração por trezentos anos, sem que seu significado tivesse sido descoberto ou os motivos de seu autor advinhados.(27)

    Pensa então Freud que um acontecimento real na vida de Shakespeare o tenha impulsionado a representá-lo em Hamlet. A questão da hesitação em Hamlet em vingar o assassinato de seu pai, perpretado pelo irmão deste, se constitui para Freud como passível de receber uma explicação, a partir da teoria psicanalítica. Freud considera que a hesitação de Hamlet quanto a esta tarefa 3&Mac218;4 ao ser contraposta a sua ausência de escrúpulos, ao mandar seus cortesãos à morte, ao matar Polônio, e, ao lançar-se a um embate mortal com Laertes 3&Mac218;4 só poderia ser explicada pela "obscura lembrança de que ele próprio havia contemplado praticar a mesma ação contra o pai, por paixão pela mãe"(28). A hesitação de Hamlet é devida ao seu sentimento inconsciente de culpa, que Freud encontra na fala de Hamlet a Polônio no Ato II, Cena II: "Use every man after his desert, and who should scape whipping?"(29), traduzido por "se tratarmos as pessoas como merecem, nenhuma escapa ao chicote."(30)

    Segundo o diagnóstico de Freud, Hamlet seria um histérico, e isso se evidenciaria em "sua alienação sexual, no diálogo com Ofélia"(31). Este diálogo, o qual não é explícitamente indicado por Freud, pensamos ser este, do Ato III, Cena I, que segue :


    Hamlet: Get thee to a nunnery; why wouldst thou be a breeder of sinners? I am myself indifferent honest; but yet I could accuse me of such things that it were better my mother had not borne me. I am very proud, revengeful, ambitious, with more offences at my beck that I have thoughts to put them in, imagination to give them scape, or time to act them in. What should such fellows as I do crawling between earth anf heaven? We arre arrant knaves, all; believe none of us. Go thy ways to nunnery. Where's your father?



    Ophelia: At home, my lord.



    Hamlet: Let the doors be shut upon him, that he may play the fool no where but in's own house. Farewell.



    Ophelia: O, help him, you sweet heavens!



    Hamlet: If thou dost marry, I'll give thee this plague for thy dowry: be thou as chaste as ice, as pure as snow, thou shalt not scape calumny. Get thee to a nunnery, go. Farewell. Or, if thou wilt needs marry, marry a fool; for wise men know well enough what monsters you make of them. To a nunnery, go, and quickly too. Farewell.



    Ophelia: O heavenly powers, restore him!



    Hamlet: I have heard of your paintings too, well enough. God has given you one face, and you make yourselves another. You jig, you amble, and you lisp, and nickname God's creatures, and make your wantonness your ignorance. Go to, I'll no more on't; it hath made me mad. I say, we will have no more marriages. Those that are married already, all but one, shall live; the rest shall keep as they are. To a nunnery, go. [Exit(32)


    Traduzido por:


    Hamlet: Vai prum convento. Ou preferes ser geratriz de pecadores? Eu também sou razoavelmente virtuoso. Ainda assim, posso acusar a mim mesmo de tais coisas que talvez fosse melhor minha mãe não me ter dado à luz. Sou arrogante, vingativo, ambicioso; com mais crimes na consciência do que pensamentos para concebê-los, imaginação para desenvolvê-los, tempo para executá-los. Que fazem indivíduos como eu rastejando entre o céu e a terra? Somos todos rematados canalhas, todos! Não acredite em nenhum de nós. Vai, segue pro convento. Onde está teu pai?



    Ofélia: Em casa, meu senhor.



    Hamlet: Então que todas as portas se fechem sobre ele, pra que fique sendo idiota só em casa. Adeus.



    Ofélia: (À parte.) Oh, céu clemente, ajudai-o!



    Hamlet: Se você se casar, leva esta praga como dote: Embora casta como o gelo, e pura como a neve, não escaparás à calúnia. Vai pro teu convento, vai. Ou, se precisa mesmo casar, casa com um imbecil. Os espertos sabem muito bem em que monstros vocês os transformam. Vai prum conventilho, um bordel: vai 3&Mac218;4 vai depressa! Adeus.



    Ofélia: Ó poderes celestiais, curai-o!



    Hamlet: Já ouvi falar também, e muito, de como você se pinta. Deus te deu uma cara e você faz outra. E você ondula, você meneia, você cicia, põe apelidos nas criaturas de Deus, e procura fazer passar por inocência a sua volúpia. Vai embora 3&Mac218;4 chega 3&Mac218;4 foi isso que me enlouqueceu. Afirmo que não haverá mais casamentos. Os que já estão casados continuarão todos vivos 3&Mac218;4 exceto um. Os outros ficam como estão. Prum bordel 3&Mac218;4 vai! (Sai.)(33)


    Outras indicações da histeria de Hamlet seriam a transferência do ato assassino do seu pai para o pai de Ofélia, e a sua auto-punição no final trágico, sanguinolento e devastador.

    Esta mesma linha de construções é encontrada em A interpretação de sonhos, quando Freud aborda os chamados 'sonhos típicos', dentre os quais se destacam os 'sonhos sobre a morte de pessoas queridas', quando Freud volta a abordar Édipo, o rei de Tebas e Hamlet, o príncipe da Dinamarca.

    Sobre o Oedipus Rex de Sófocles, Freud tece observações que adjetivaríamos como uma crítica de estética literária, ao colocar, em primeiro plano, a eficácia estética de Édipo, estética no sentido de captação e desenvolvimento de (novos?) processos psíquicos. Freud diz que, para além do plano trágico, no sentido de ser uma tragédia do destino, ou seja, da consecução determinista dos desígnios dos deuses em detrimento da vontade do protagonista, está na peça a existência de um desígnio, uma compulsão, universal na experiência dos homens. "...o destino nos comove sòmente porque poderia ser o nosso 3&Mac218;4 porque o oráculo lançou a mesma praga sobre nós antes de nascermos, como sobre ele."(34)

    Essa 'praga', no dizer de Freud, "é o destino de todos nós, talvez, dirigir nosso primeiro impulso sexual no sentido de nossa mãe e o nosso primeiro ódio e nosso primeiro desejo assassino contra nosso pai."(35). Sendo assim, a saga de Édipo, assassinando seu pai e casando com sua mãe, é a realização dos desejos infantis humanos, que foram recalcados. O outro aspecto que nos assemelha a Édipo é a ignorância quanto a essas fantasias.

    Freud também apresenta uma analogia entre o progressivo desvelamento da verdade de Édipo, no transcorrer da ação da peça, realizado por Sófocles, e o que ocorre em uma psicanálise, onde a proposta é a de um trabalho de desvelamento progressivo da verdade do sujeito.

    Mas, retornando a Hamlet, Freud coloca que neste estamos perante as mesmas determinantes que norteiam (ou desnorteiam) Édipo, ou seja, os impulsos incestuosos-parricidas. Só que em Hamlet, em função do avanço do recalque que ocorreu no largo intervalo de tempo que separa as duas produções literárias (pois, para Freud, o avanço da civilização é concomitante a uma amplitude do recalque, ou seja, quanto mais civilização, mais recalque, e, com isso, mais mal-estar na civilização), esses impulsos permanecem recalcados; enquanto, em Édipo, a fantasia infantil é realizada, isto é, Édipo realmente mata o pai e casa-se com a mãe, a tragédia de Hamlet, em função do recalque, se apresenta ao modo de uma neurose; em Hamlet o enigma não recebe resposta, o caráter do herói permanece enigmático.


    O traço de caráter que é o sintoma principal em Hamlet é, como já vimos, a sua hesitação em realizar a vingança da morte de seu pai, matando seu tio fratricida que se tornou seu padastro, ao casar-se com sua mãe (esse aspecto do enredo, o de que Claudius esteja no lugar do pai, ou seja, a questão do desejo da mãe, é apontada como central e desenvolvida por Lacan em seu trabalho acima citado)(36). Freud coloca que, em suas falas, Hamlet não apresenta "quaisquer razões ou motivos para essas hesitações e uma imensa variedade de tentativas de interpretá-las deixou de produzir qualquer resultado."(37). Dentre essas tentativas de interpretação da hesitação de Hamlet, Freud se refere primeiramente à de Goethe, que considera como a predominante em seus dias. Freud coloca que segundo Goethe, Hamlet "representa o tipo de homem cujo poder de ação direta é paralisado por um desenvolvimento excessivo de seu intelecto"(38). A segunda interpretação que é citada por Freud é a que concebe Hamlet como o resultado da tentativa de Shakespeare de "retratar um caráter patológicamente irresoluto, que poderia ser classificado como neurastênico."(39)


    A essas duas interpretações, Freud contrapõe duas situações que se apresentam no enredo da peça, em que se mostra Hamlet capaz de ação. A primeira dessas situações é, quando Hamlet trespassa Polônio com sua espada; a segunda é, quando manda os cortesãos Rozencrantz e Guildenstern à morte, que havia sido planejada para ele mesmo, Hamlet.

    Para Freud, a razão da hesitação de Hamlet em vingar seu pai, continua sendo o fato de seu tio ter realizado uma ação que havia sido desejada pelo próprio Hamlet quando de sua infância. Com isso, o ódio sentido pelo tio-padrasto é "substituído por auto-recriminações, por escrúpulos de consciência, que o fazem lembrar que êle próprio, literalmente, não é melhor que o pecador que deve punir."(40)

    Freud diz que esta construção psicanalítica é uma tradução em termos conscientes do que "se destinava a permanecer inconsciente na mente de Hamlet"(41), e reitera o diagnóstico, que já havia sido proferido na carta de 15 de outubro de 1897, de histeria, evocando a cena de Hamlet com Ofélia, que pensamos ser a apresentada acima, em que Freud percebe um "desagrado pela sexualidade"(42).

    Freud, seguindo sua análise, busca escutar, através das falas de Hamlet, Shakespeare. Atribui a este essa mesma aversão pela sexualidade encontrada em Hamlet, aversão esta que se apresentaria crescente no transcorrer da sua obra e que teria alcançado o seu clímax em Tímon de Atenas. Freud se debruça sobre a biografia de Shakespeare (quando ainda não questionava a sua autoria e mesmo a sua existência), e passa a fazer considerações, correlações entre os eventos da sua vida e os resultados na sua obra. Freud assinala que Hamlet foi escrito logo após a morte do pai do poeta (1601), e deduz disso que o momento da criação de Hamlet foi subseqüente ao tempo em que Shakespeare estava a reviver os seus sentimentos, suas fantasias infantis quanto ao seu pai. Freud também correlaciona o nome do herói, Hamlet, com o nome do filho de Shakespeare, Hamnet, que teria morrido precocemente. Em ambos os casos, temos implicações advindas das relações entre pais e filhos, e Freud observa também que, em Macbeth, escrita no mesmo período (1605-1606), encontra-se o tema da "falta de filhos"(43).

    Freud conclui esta análise de Hamlet, alegando que do mesmo modo que os sintomas neuróticos e os sonhos, as obras dos escritores verdadeiramente criativos possibilitam 'super-interpretações', ou seja, todos esses fenômenos são produções de mais de um impulso na mente (tanto na do poeta, quanto na do neurótico comum), e "estão abertos a mais de uma interpretação isolada"(44). Mas, apesar dessas circunstâncias, Freud diz que apenas tentou "interpretar a camada mais profunda dos impulsos na mente do criativo escritor"(45), ou seja, a interpretação de Freud, imodestamente, é mais profunda que a interpretação de seus antecessores.

    Mas, posteriormente, Freud vem a desacreditar da autoria de Shakespeare, e passa a supor que o nome William Shakespeare é um pseudônimo usado por um Conde de Oxford chamado Edward de Vere; mas este último também teria sofrido um 'trauma hamletiano', ou seja, teria perdido "um pai amado e admirado quando ainda era menino e repudiou completamente a mãe, que contraiu um nôvo casamento logo depois da morte do marido."(46)

    Porém, independentemente de questões sobre autoria, para Freud,


    (...) a análise confirma tudo o que a lenda descreve. Mostra que cada um desses neuróticos também tem sido um Édipo, ou, o que vem a dar no mesmo, como reação ao complexo, tornou-se um Hamlet.(47)


    O que podemos concluir no momento é que a importância de Hamlet, no contexto psicanalítico freudiano, não é de pouca monta; a decifração do enigma de Hamlet, a 'descoberta' de Freud dos sentidos da hesitação hamletiana, significou para ele como o equivalente a um 'ovo de Colombo' no campo da literatura; uma angústia de três séculos foi enfim dissolvida por Freud através da teoria psicanalítica 3&Mac218;4 segundo ele mesmo. Enfim a sofrida hesitação de Hamlet recebeu um sentido plausível. Como Freud diz:


    (...) tenho acompanhado de perto a literatura psicanalítica e aceito sua pretensão de que somente depois de ter tido o material da tragédia sua origem remontada pela psicanálise ao tema edipiano é que o mistério de seu efeito foi por fim explicado.(48)


    Marcos Chedid Abel
    Psicanalista. Mestre (monografia O trauma na etiologia das neuroses em Freud) e Doutorando em Psicologia Clínica pela Universidade de Brasília (trabalhando com o tema A verdade na psicanálise e na arte)

    Brasília, 16 de novembro de 1997
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    Notas:

    1. SÓFOCLES et alii . Édipo Rei.;Prometeu acorrentado; Medéia. São Paulo, Abril, 1980. p. 80.
    2. JONES, Ernest. Hamlet e o complexo de Édipo. Trad. de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro, Zahar, 1970.
    3. LACAN, Jacques. Hamlet por Lacan. Campinas, Escuta-Liubliú, 1986.
    4. PIMSTEIN, Felipe. Hamlet - anatomia de la ambigüedad. Santiago-Chile, Editorial Universitária, 1972.
    5. PORTELA NUNES, Eustachio & Clara Helena. Freud e Shakespeare. Rio de Janeiro, Imago, 1989.
    6. VITAL BRASIL, Hórus. Dois ensaios entre psicanálise e literatura. Rio de Janeiro, Imago, 1992.
    7. WALDOCK, M. A. A. J. A. Hamlet - a study in critical method. Cambridge, University Press, 1931.
    8. Idem, ibidem, p. 98.
    9. Idem, ibidem, p. 98.
    10. WOOD, W. Dyson. Hamlet from a psychological point of view. London:,Longmans Green Reader and Dyer, 1870.
    11. Idem, ibidem , p. 26.
    12. QUIJANO, Margarita. Hamlet y sus críticos. México, Universidad Nacional Autônoma de México, 1962.
    13. Idem, ibidem, p. 18.
    14. WILLIAMSON, Claude. Readings on the character of Hamlet. London, George Allen & Unwin Ltd, 1950.
    15. FREUD, Sigmund. "Dostoievsk e o parricídio" (1928 [1927]), in: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Volume XXI. Rio de Janeiro, Imago, 1974, p. 217.
    16. FREUD, Sigmund. "Um estudo autobiográfico" (1925 [1924]), in: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Volume XX. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 78.
    17. FREUD, Sigmund. "Tipos psicopáticos no palco" (1905[1906]), in: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Volume VII. Rio de Janeiro, Imago, 1972. p. 326.
    18. FREUD, Sigmund. A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess 1887-1904. Editado por Jeffrey Masson. Rio de Janeiro, Imago, 1986. p. 273.
    19. FREUD, Sigmund. "Cinco lições de psicanálise" (1910A), in: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Volume XI. Rio de Janeiro, Imago, 1970, p. 44.
    20. FREUD, Sigmund. "Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens (contribuições à psicologia do amor I)" (1910B), in: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Volume XI. Rio de Janeiro, Imago, 1970, p. 154.
    21. FREUD, Sigmund. A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess 1887-1904. Editado por Jeffrey Masson. Rio de Janeiro,Imago, 1986. p. 273.
    22. Idem, ibidem, p. 251.
    23. Idem, ibidem, p. 251.
    24. Idéia esta que voltou a ser sensacionalísticamente defendida em nossos dias por Jeffrey Masson (MASSON, Jeffrey. Atentado à verdade - a supressão da teoria da sedução por Freud. Rio de Janeiro, José Olympio, 1984).
    25. FREUD, Sigmund. A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess 1887-1904. Editado por Jeffrey Masson. Rio de Janeiro, Imago, 1986, p. 265.
    26. Idem, ibidem, p. 273.
    27. FREUD, Sigmund. "Um estudo autobiográfico" (1925 [1924]), in: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Volume XX. Rio de Janeiro, Imago, 1976. p. 79.
    28. FREUD, Sigmund. A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess 1887-1904. Editado por Jeffrey Masson. Rio de Janeiro, Imago, 1986. p. 273.
    29. SHAKESPEARE, William. Hamlet - Prince of Denmark. USA, The Macmillan Company, 1946. p. 77.
    30. SHAKESPEARE, William. Hamlet. Trad. de Millôr Fernandes. Porto Alegre: L&PM, 1991. p. 81.
    31. FREUD, Sigmund. A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess 1887-1904. Editado por Jeffrey Masson. Rio de Janeiro, Imago, 1986. p. 274.
    32. SHAKESPEARE, William. Hamlet - Prince of Denmark. USA: The Macmillan Company, 1946, p. 86.
    33. SHAKESPEARE, William. Hamlet. Trad. de Millôr Fernandes. Porto Alegre, L&PM, 1991, p. 90.
    34. FREUD, Sigmund. "A interpretação de sonhos" (1900), in: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Volume IV. Rio de Janeiro,Imago, 1972, p. 278.
    35. Idem, ibidem, p. 278.
    36. LACAN, Jacques. Hamlet por Lacan. Campinas, Escuta-Liubliú, 1986, p. 34-40.
    37. FREUD, Sigmund. "A interpretação de sonhos" (1900), in: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Volume IV. Rio de Janeiro,Imago, 1972, p. 280.
    38. Idem, ibidem, p. 280.
    39. Idem, ibidem, p. 281.
    40. Idem, ibidem, p. 281.
    41. Idem, ibidem, p. 281.
    42. Idem, ibidem, p. 281.
    43. Idem, ibidem, p. 281.
    44. Idem, ibidem, p. 282.
    45. Idem, ibidem, p. 282.
    46. FREUD, Sigmund. "Esboço de psicanálise" (1940 [1938]), in: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Volume XXIII. Rio de Janeiro, Imago, 1975, p. 221.
    47. FREUD, Sigmund. "Conferências introdutórias sobre psicanálise" (1916-1917 [1915-1917], in: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Volume XVI. Rio de Janeiro, Imago, 1976, p. 392.
    48. FREUD, Sigmund. "O Moisés de Michelangelo" (1914), in: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Volume XIII. Rio de Janeiro, Imago, s.d., p. 254.