ANTROPOSMODERNO

    Publicado por a Revista Tesseract edição n. 4 maio 2001
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    Teoria da comunicação feminista: uma explicação semiótico-fenomenológica da teorização acadêmica feminista

    Mariane L. Souza (1)
    Jacqueline M. Martinez (2)





    Resumo – O objeto de investigação deste estudo são os textos de seis teorias feministas: 1) a teoria da mulher como "outro" de Simone de Beauvoir; 2) a teoria do patriarcado de Kate Millett; 3) a filosofia da ciência feminista; 4) o feminismo psicanalítico; 5) teoria do ponto-de-vista marxista; e 6) o feminismo inalterado. Os textos são estudados através do método fenomenológico, no qual o investigador coloca entre parênteses suas noções anteriores, para buscar um novo entendimento do problema estudado. A descrição fenomenológica aponta duas necessidades para a teorização feminista: o uso da metodologia tradicional para estudar como tornar visível a experiência da mulher e uma análise cuidadosa dos modos como a metodologia tradicional funciona para excluir a mulher. A redução fenomenológica indica que a teorização feminista não deveria ser uma experiência pessoal e idiossincrática, mas freqüentemente o é. Assim, interpreta-se que a teorização feminista requer uma explicação fenomenológico-semiótica que questione o seu próprio sentido e, por outro lado, requer um questionamento da fenomenologia-semiótica como apropriada ao esforço acadêmico feminista para descobrir possibilidades existenciais para si mesma.

    Palavras-chave: feminismo, comunicação, fenomenologia, metodologia.

    Para uma parte das mulheres acadêmicas (3), a idéia de feminismo representa uma possibilidade teórica atrativa. Freqüentemente, essas mulheres com interesse na teoria feminista vêm para a prática acadêmica com aspirações muito específicas. Entendem que seu trabalho deve fazer parte de uma jornada pessoal em direção a visões de si mesmas como mulheres, nem sempre muito claras. No entanto, seria errôneo sugerir que tal versão romantizada de uma jornada pessoal traduz-se necessariamente em uma experiência real de procurar uma graduação e, presumivelmente, uma carreira acadêmica. A presença de esforços explicitamente visionários na teoria e prática feminista leva à assunção de prescrições ou dogmas. Em torno dessas idéias produzem-se tipos particulares de tensões para a acadêmica feminista e, por vezes, quando se assume uma posição feminista, toma-se as próprias experiências e afirmações sentenciando uma verdade para todas as mulheres. Então, a feminista esconde de si mesma o fato de que existem outras pessoas que têm experiências diferentes e procuram realizar uma possibilidade diferente. Além disso, tomando suas próprias experiências e afirmações para sentenciar uma verdade, ela corre o risco de limitar os sentidos interpretativos da sua própria experiência. O feminismo, como qualquer outra perspectiva envolvida na interpretação da experiência e construção de sentido (significação), é ele mesmo parte de um mundo sócio-cultural maior e mais complexo cuja influência, não poucas vezes, escapa a nossa consciência imediata.

    Este estudo articula-se em torno do problema de como a acadêmica feminista situa-se no discurso (pensamento e ação) em meio à multiplicidade de aspirações e descontinuidades que constituem a teorização feminista. O objetivo dessa investigação é interrogar o contexto discursivo explícito da teorização feminista para explicar as significações implícitas e pré-reflexivas nela contidas. Foram selecionadas seis linhas teóricas de orientação feminista: Simone De Beauvoir (1952) e a teoria da mulher como "Outro"; Kate Millett (1970) e a teoria do patriarcado; a filosofia da ciência femnista (Harding, 1989); o feminismo psicanalítico (Chodorow, 1989); a teoria marxista (do ponto-de-vista feminista, Hartsock [1989]) e o feminismo inalterado (MacKinnon, 1989). O texto descreve brevemente cada teoria para, em seguida, analisar a teorização feminista como uma problemática metodológica. Cada teórica feminista selecionada representa um contexto discursivo explícito que é adotado (ou adotados, simultaneamente) pelas acadêmicas feministas como orientação teórica de seus trabalhos. Dentro deste contexto discursivo explícito adotado, as acadêmicas feministas também envolvem-se com um contexto discursivo implícito que ultrapassa a consciência imediata. Cada orientação teórica descrita constitui uma fundação para o posterior desenvolvimento da teorização feminista. A temática da teorização feminista é por fim analisada através dos três passos da fenomenologia semiótica: descrição, redução e interpretação.

    A teoria da mulher como "Outro" de Beauvoir: Orientação teórica

    O texto feminista O segundo sexo de Simone de Beauvoir (1952) é o primeiro, e talvez o mais importante, trabalho acadêmico a tomar a categoria mulher como sua problemática primária. A teoria existencial de Beauvoir constitui uma base essencial fenomenológica (mulher) e semiótica (como outro) para o desenvolvimento da teorização feminista contemporânea. É uma teoria na perspectiva de éticas existencialistas – cada sujeito (pessoa) participa de sua própria transcendência através de seu envolvimento em projetos práticos da vida diária. Para Beauvoir, o valor da existência humana reside em um engajamento aberto ao mundo, onde o sujeito, como um agente ativo, transcende os dados imediatos do mundo, envolvendo-se neles e projetando um eu existencial como uma pessoa inserida no mundo. Beauvoir (1952, p.xxxiii) resume sua posição sobre a ética existencialista da seguinte forma: "Não há outra justificativa para a presente existência, que a sua expansão em um futuro indefinidamente aberto". O texto de Beauvoir nos fornece uma teoria sobre a mulher e a cultura em um contexto de pessoa (homem) e escolha, delineando uma posição singular da mulher e do homem na cultura. Ao nos fornecer uma teoria sobre mulher e cultura, Beauvoir sugere que uma convergência de circunstâncias predispõem aqueles enquadrados na categoria mulher em direção a uma vida de sujeição a condições dadas (imanência), enquanto que aqueles enquadrados na categoria homem são predispostos a se envolver em projetos como um problema de curso (transcendência). Assim, Beauvoir procura analisar os modos pelos quais as categorias homem e mulher se estruturam em uma orientação cultural que predispõe as pessoas de cada categoria em direção a diferentes tipos de escolhas. Esta predisposição em direção a diferentes tipos de escolhas ocorre como resultado de um processo engendrado na cultura – um processo que difere de acordo com a categoria sexual biológica à qual a pessoa pertence. A categoria sexual biológica de alguém não é determinativa de sua existência, mas fornece uma base sobre a qual a cultura diferencia o que é natural para as pessoas de cada categoria. Conseqüentemente, as pessoas são culturalmente predispostas em direção a diferentes naturezas. Corpos biologicamente masculinos e femininos "são insuficientes para determinar uma hierarquia dos sexos; eles fracassam em explicar por que a mulher é a Outra; eles não as condenam a permanecerem subordinadas a esta regra para sempre" (Beauvoir, 1952, p.xxii). Essas categorias biológicas de sexo, de acordo com Beauvoir, envolvem uma relação onde "o homem representa o positivo e o neutro, como indicado pelo uso comum de homem para designar seres humanos em geral, enquanto que mulher representa somente o negativo, definido pelo critério limite, sem reciprocidade" (1952, p.xviii). Esta lacuna de reciprocidade entre os sexos constitui um contexto cultural no qual o homem está predisposto a ver a si mesmo como um ser autônomo, enquanto a mulher está predisposta a ver a si mesma somente em relação ao homem. Em uma formulação neo-hegeliana, a categoria de mulher é a categoria do Outro contra o qual o homem constitui a si mesmo como Sujeito. Para Beauvoir, a identificação da própria consciência, além e contra a existência de outra consciência (eu sei que eu sou eu, porque eu não sou você) é a fundação da relação entre cultura e humanidade. Desta estrutura filosófica, Beauvoir afirma que a mulher assumiu a condição de outro exigida dela pela cultura e falha ao afirmar a si mesma como uma pessoa livre e autônoma exigindo reciprocidade de um outro em sua vida. Antes, a mulher identifica a si mesma em sua capacidade como "Outra", procurando somente envolver-se em esforços que sejam sancionados pela cultura. A mais importante crítica feita pelas teóricas feministas (Butler, 1986, p.36) à teoria de Simone de Beauvoir é que sua análise define as possibilidades da mulher, tomando como referência um mundo nos termos masculinos. Por exemplo, ao refutar o critério biológico como uma base para compreender "homem" e "mulher", sugere que, "é somente em uma perspectiva humana que podemos comparar a fêmea e o macho da espécie humana" (1954, p.38). Compreendida em conjunto com sua asserção de que homem representa o positivo e o neutro, enquanto mulher representa somente o negativo, o argumento de Beauvoir pode ser interpretado no sentido de sugerir que a mulher deve aspirar à liberdade do mesmo modo e no mesmo contexto que o faz o homem.

    Teoria do patriarcado de Millett

    A teoria do patriarcado implícita na teoria de Beauvoir sobre a mulher como "Outro", e explicitamente desenvolvida por Millett (1970), constitui a base para várias análises críticas dos modos nos quais a cultura e suas instituições envolvem estruturas patriarcais em suas práticas naturais e ordinárias. Estas estruturas patriarcais são definidas em termos de uma hierarquia diferencial de poder onde a distribuição de poder e valor na cultura existe de acordo com a identidade de gênero. Assim, ser generificada como uma mulher é ter menos poder e valor em comparação com aquelas pessoas generificadas como um homem. A teoria do patriarcado compartilha idéias da teoria marxista ao definir que elementos específicos inerentes à sustentação da existência humana (sistemas de poder por gênero e sexualidade) funcionam pré-consciente e regulativamente na sociedade. Portanto, até que estes elementos pré-conscientes passem a ser conscientes através da tomada de consciência, o mundo social continuará engendrando práticas de exploração identificadas como estruturantes das regras de opressão inerente à prática social. As proposições de Millett (1970) baseiam-se na premissa de que sexualidade "é um conjunto tão profundamente inscrustrado no contexto maior das relações humanas que serve como um microcosmo carregado de uma variedade de atitudes e valores os quais a cultura subscreve" (1970, p. 31). Enquanto um microcosmo carregado, a sexualidade retém uma aparência silenciosa que esconde uma estrutura de domínio e poder, constituindo "a mais abrangente ideologia de nossa cultura" (1970, p. 33). Segundo a autora, estas estruturas fundamentais de sexualidade, dominação e poder são questões inerentemente políticas que passam virtualmente desconhecidas, ainda que institucionalizadas. Essas são questões políticas, afirma, porque elas resultam em tipo de colonização interna por meio da qual as pessoas são envolvidas em um sistema de dominação masculina onipresente pela ausência de uma "consciência consciente" como uma categoria moral ou estética. Em uma de suas mais importantes afirmações, Millett argumenta que estas estruturas fundamentais opressivas de sexualidade, dominação e poder, podem ser identificadas e definidas "no plano do contato pessoal e na interação entre membros de grupos coerentes e bem definidos: raças, castas, classes, e sexos" (1970, p.32). Em outras palavras, enquanto estas estruturas opressivas da cultura puderem ficar ausentes de uma consciência consciente, elas serão todavia praticadas como presentes na experiência. Assim, a teoria do patriarcado de Millett simultaneamente estabelece um compromisso para a contra-prática feminista: olhar para a sua interação diária como membros de categorias de gênero e sexo bem definidas para pôr fim e, presumivelmente usurpar, às muitas estruturas que oprimem. Experiência de ampliação da consciência é a solução para acabar com a opressão e exploração masculina. Este compromisso para a prática feminista foi a base para a emergência, nos anos 70, do gênero da crítica literária feminista. Nos anos 80, a prática da crítica literária feminista desenvolveu-se em esforços teóricos onde a prática mesma estava problematizada no trabalho acadêmico feminista.

    Millett identifica e critica as forças culturais que constróem e mantém a mulher como um ser inferior ao homem. Ela interroga as circunstâncias onde exigências culturais reforçaram o status e o sentido de mulher tomado como natural e, desta forma, fizeram-se onipresentes em sua invisibilidade. A autora, então, estabelece um compromisso para a ação política focalizada na assunção da existênica de relações de poder entre os membros das categorias "homem" e "mulher". Esta estratégia de ação política prefigura o desenvolvimento da estratégia feminista – especialmente na crítica literária feminista (Kolodny, 1979). Por conseguinte, a identificação, o desafio e a alteração de políticas sexuais tornaram-se os sentidos pelos quais as mulheres ganham poder e criam novas possibilidades para elas mesmas como mulheres.

    Filosofia da Ciência Feminista

    A teoria feminista e a crítica na filosofia da ciência move-se progressivamente de um foco em orientações teóricas empíricas, abrangendo o desenvolvimento de teorias de ponto-de-vista feministas, para um foco nas contribuições e problemas introduzidos pelas orientações teóricas pós-modernas (Harding, 1989). O empirismo feminista questiona a capacidade da ciência em avaliar adequadamente a experiência da mulher dentro do paradigma dominante da ciência empírica. Este paradigma dominante foi identificado como enraizado na cultura androcêntrica e é, desta forma, influenciado pela experiência masculina. O empirismo feminista identifica os problemas e questões da ciência, como reflexos de uma perspectiva do gênero masculino para a exclusão de uma perspectiva do gênero feminino: o empirismo feminista expôs "uma ciência distorcida pelo viés masculino em termos de problemáticas, teorias, conceitos, métodos de inquérito, observações, e interpretações de resultados de pesquisa" (Harding, 1989, p.21). Conseqüentemente, a teoria feminista move-se em direção a esforços que desenvolvam epistemologias do ponto-de-vista feminista. As teorias do ponto-de-vista feminsita vêem elas mesmas como provedoras de "entendimentos menos racionalizados, menos perversos, menos defensivos, menos distorcidos, menos falsos e mais completos dos mundos natural e social" (Harding, 1989, p.24).

    Outras teóricas feministas na filosofia da ciência envolvem teorias pós-modernas que conseqüentemente "desafiam a ligitimidade de tentar descrever como o mundo é de uma perspectiva distintivamente feminista" (Harding, 1989, p.26). As perspectivas pós-modernas reconhecem que "uma vez que o homem universal e essencial dissolve, dissolve também sua obscura companhia, a mulher" (Harding, 1989, p.18). A ação política julgada tão importante nas teorias do ponto-de-vista feminista é, então, criticada como mal-concebida para lidar com estas realidades complexas. A teorização feminista guarda alguma ambivalência em relação às teorias pós-modernas porque reconhece que esta perspectiva pode funcionar no sentido de "aceitar a insistência dos grupos dominantes de que seu direito de adotar visões distorcidas (...) é intelectualmente legítimo" (Harding, 1989, p.27).

    Feminismo Psicanalítico

    O feminismo encontra na teoria psicanalítica "uma teoria da feminilidade e masculinidade, uma teoria de desigualdade de gênero e uma teoria do desenvolvimento da heterossexualidade" (Chodorow, 1989, p.174). O feminismo encontra, na Psicanálise, um ponto de interseção importante para seus esforços teóricos, na medida em que esta última tem uma teoria de gênero construída a partir da prática.

    Nancy Chodorow, uma das mais proeminentes teóricas psicanalíticas feministas das últimas duas décadas, utiliza as relações objetais para propor que a mulher define a si mesma em conexão com outras pessoas muito mais que a personalidade masculina o faz. Os esforços teóricos de Chodorow partem da experiência das mulheres (em contraste com a dos homens) sem análise crítica das circunstâncias políticas e sociais que dão sustenção àquelas diferenciações das experiências generificadas em primeiro plano. Deste ponto, a teoria move-se para fora do mundo e sugere que sua análise da experiência das mulheres oferece novos modos de compreensão e novos contextos para a interpretação da experiência de dos valores humanos.

    Jane Flax (1983), outra proeminente teórica psicanalítica feminista, usa a teoria das relações de objeto para delinear os modos nos quais um inconsciente cultural (inconsciente patriarcal) é formado, constituído e reconstituído na base da repressão da experiência infantil – uma depressão que difere de acordo com o gênero e no qual funciona implicitamente um discurso filosófico.

    Teoria do Ponto-de-vista Feminista de Hartsock

    Nancy Hartsock (1983) utiliza as teorias marxista e psicanalítica em seus esforços para desenvolver um materialismo histórico especificamente feminista. Utilizando a teoria psicanalítica, Hartsock afirma que em função da educação feminina, "as meninas entram na idade adulta com um estrato mais complexo de laços afetivos e uma contínua internalização de relações de objeto" (1983, p. 295). Traduz este argumento em uma temática Marxista, sugerindo que esse estrato complexo de laços afetivos nas meninas resulta em uma conexão mais concreta com o mundo que os meninos: "a masculinidade é idealizada pelos meninos, enquanto a feminilidade é concreta para as meninas" (1983, p. 295).

    Hartsock sugere que da mesma forma que "a teoria marxista precisou ir abaixo da superfície para descobrir os diferentes níveis de determinação que definiam a relação entre capitalista e trabalhador (masculinos)", assim a teoria feminista deve penetrar a superfície para descobrir os diferentes níveis de determinação que definem a sociedade falocrática. E, estes níveis "devem ser elaborados com base na experiência feminina" (1983, p.302). Deste modo, uma teoria do ponto-de-vista feminino cria novas possibilidades de auto-compreensão que não são possíveis em uma sociedade falocrática fundada na masculinidade abstrata. Por fim, Hartsock sugere que estas possibilidades criadas pelo ponto-de-vista feminista nos provém com o que ele chama "a valorização própria da atividade humana" (p. 299).

    O Feminismo Inalterado de MacKinnon

    A estratégia teórica de MacKinnon (1989) oferece uma apropriação feminista da teoria marxista para sugerir que uma mulher é sua sexualidade enquanto definida pelo homem. MacKinnon expressa os aspectos marxistas de seu argumento tematicamente na assertiva, "como a expropriação organizada do trabalho por alguns para o benefício de outros, define uma classe – trabalhadores – a expropriação organizada da sexualidade de alguns [mulher] para o uso de outros [homens] define o sexo, mulher" (1982, p. 2). MacKinnon vai além da compreensão de Marx de consciência como construída na vida material da pessoa para sugerir que a consciência de alguém como uma pessoa generificada é construída na sexualidade de acordo com um desejo masculino do feminino. Enquanto Millett argumenta que as estruturas opressivas de gênero da cultura estão ausentes da consciência consciente, mas presentes na experiência, MacKinnon coloca que as estruturas opressivas de gênero constituem o fenômeno de organização fundamental da experiência consciente. Deste modo, a mulher conhece a si mesma somente dentro de estruturas opressivas de gênero que definem mulher de acordo com o desejo masculino. MacKinnon explica a emergência do feminismo – uma consciência consciente e a construção de uma mulher generificada fora do desejo masculino – como conseqüência de tornar explícitas as atividades da vida diária que as mulheres experienciam privativa e pessoalmente e nas quais expressam as estruturas opressivas de gênero da cultura. Este tornar explícito é alcançado através da prática de ampliação da consciência. Para MacKinnon, a consciência consciente constitui um método unicamente feminista que é o processo através do qual a experiência pessoal e privada das mulheres torna-se o material que informa as estratégias feministas para a mudança social e cultural. Como Millett, o argumento teórico de MacKinnon começa como a asserção não-problematizada de que o acesso ao poder na cultura é claramente distribuído de acordo com a hierarquia de gênero onde ser uma mulher é ser menos poderosa que o homem. Também como Millett, a estratégia teórica de MacKinnon simultaneamente estabelece um compromisso político para a prática feminista. Deste ponto de partida ela desenvolve sua análise da "diferença que faz o gênero", focalizando as experiências vividas da vida real, em ser uma mulher de um ponto-de-vista da mulher.

    A teorização feminista como uma problemática metodológica: uma temática semiótico-fenomenológica

    A posição da fenomenologia e da semiótica para a teorização feminista constitui-se em um esforço analítico: faz-se uso de uma lógica dedutiva (regra + caso = resultado) na qual é feita a comparação (resultado) de dois fenômenos (casos) em um mesmo contexto (regra). Assim, fenomenologia e semiótica são comparadas à teorização acadêmica feminista no contexto de um acesso metodológico às significações que emergem relativamente à consciência individual e às hierarquias culturais.

    A teorização feminista se aproxima da fenomenologia quando critica a ciência positivista e o método científico e quando afirma a necessidade de trazer à luz a experiência existencial das mulheres (mundo vivido). A teorização feminista afirma que a relação entre pesquisador e sujeito da pesquisa deve estar explicitada no projeto de pesquisa teórica. Em segundo lugar, a teorização feminista afirma que teoria e método devem ter a capacidade de interrogar a si próprios.

    A semiótica é indicada na teorização feminista em seu questionamento da cultura e na ênfase que dá às categorias ausentes que constituem as normas culturais. A teorização feminista, primeiramente, afirma que gênero, identidade e experiência são conseqüências de uma convergência complexa de relações que ocorrem em contextos de situações psicológicas, sociais e culturais. Portanto, ela deve ter a capacidade de abranger essas múltiplas relações. Por fim, a teorização feminista refere a semiótica em sua consciência de que categorias ausentes e de que relações contíguas à cultura ajudam a constituir a teorização consciente; portanto, elas devem ser reconhecidas e encontradas no processo de teorização.

    Os mesmos prejuízos do empirismo positivista atacados pela teorização feminista já eram há muito indicados pelo movimento fenomenológico. A fenomenologia radicaliza a ciência e apresenta uma metodologia com liberdade para questionar a si mesma em meio a sua prática. Husserl, reconhecido como o fundador da fenomenologia, critica o positivismo e o empirismo pelo modo como destacam a pessoa do mundo e se opõe ao "psicologismo" introspectivo e à filosofia intelectualista pela separação que fazem entre mundo e pessoa. Como um lógico, ele está interessado "em uma lógica pura como estudo da denominação (‘designata’) de nossos símbolos, como significações proposicionais e como objetos ontológicos significados através deles" (Spiegelberg, 1984, p.92). Husserl (1990) encontra na universalidade da percepção (a consciência situando a existência do objeto) tanto o particular do objeto quanto a essência universal que permite essa alocação no nível existencial. A sua colocação da essência universal implícita na aparição dos objetos para a consciência levou-o a conceber um eu transcendental universal. No entanto, na última parte de sua carreira, Husserl desenvolveu idéias que estão fora desse conceito. Fenomenólogos posteriores como Merleau-Ponty também contestaram a noção de um eu transcendental universal. Para este último, a atitude fenomenológica consiste no retorno ao sujeito falante, e não à universalização. A tese radical de Merleau-Ponty sugere que a atitude fenomenológica, necessariamente engajada na implementação existencial do método fenomenológico, tem a capacidade de participar dos muitos processos pelos quais a consciência constitui a si mesma. Acrescenta também, que as noções de significação ideal ou absoluta não devem ser tomadas como universais ou totais, mas "devem alcançar-me na compreensão do que não constituindo a consciência pode conhecer meu envolvimento com o mundo" (Merleau-Ponty, 1964 a, pp.94-95). Desta forma pode-se compreender a asserção de Merleau-Ponty de que "nós devemos encontrar em nós mesmos, e em nenhuma outra parte, o único e verdadeiro significado da fenomenologia... [É uma questão] de determinar e expressar em forma concreta a fenomenologia por nós mesmos" (1981, p.vii). Desta forma, a semiótica e a fenomenologia constituem uma ferramenta metodológica apropriada para a explicação da construção da teoria feminista e seu subseqüente objeto de estudo. A fenomenologia e a semiótica levantam questões concernentes à constituição de sentido relativo à consciência individual e sentidos incrustrados nas hierarquias de cultura, respondendo, assim, ao critério de condição suficiente na construção da teoria.

    A problemática que surge a partir do questionamento da metodologia é a ausência da experiência da mulher e do ponto-de-vista feminino na teorização acadêmica. Esta problemática metodológica proposta pela construção da teoria acadêmica feminista é seguida, neste estudo em forma de experimento. Envolve o "uso da lógica abdutiva [regra + resultado = caso]" na qual "no mesmo contexto [regra], uma comparação interna [resultado] estabelece a identidade de dois fenômenos [caso]" (Lanigan, 1992, Apêndice B). Ou seja, no contexto da teorização acadêmica feminista [regra] uma comparação interna da metodologia engajada [resultado] estabelece a identidade de dois fenômenos (teorização acadêmica e experiência humana) [caso]. O objeto de investigação do estudo são os textos de teorias feministas específicas. Os textos são estudados colocando-se em prática o epoqué fenomenológico, através da suspensão das noções pré-concebidas que a leitura dos textos pode evocar, concentrando-se no esforço para descrever, ilustrar e delimitar as significações que derivam da experiência de leitura dos mesmos. Dois temas descritivos estruturam o resumo do método: o primeiro, é a crítica aos métodos correntes e legitimados; o segundo é o esforço para se adequar teorias e métodos existentes para usos feministas. O trabalho de Simone De Beauvoir e o de Catharine MacKinnon são duas exceções a esta tematização. O primeiro trabalho oferece uma crítica displicente de método e apropria-se politicamente do existencialismo em serviço do Existencialismo. O trabalho de MacKinnon reinvindica a "ampliação da consciência" como método e lógica do feminismo. A temática de MacKinnon, entretanto, não foi testada: apesar dessa autora defender a auto-reflexão como crucial na metodologia, seus textos não envolvem uma auto-reflexão metodológica como uma condição de validade na construção teórica.

    O método da fenomenologia semiótica move-se reflexivamente da descrição fenomenológica para a redução fenomenológica e da redução para a interpretação fenomenológica. "Em sua reflexividade, cada passo do método fenomenológico-semiótico implica todos os outros" (Lanigan, 1988). A descrição fenomenológica é um resumo narrativo dos textos das teorias feministas (capta). A redução fenomenológica implica a abstração da interpretação da redução da descrição do significante ou elemento expressivo do fenômeno (Lanigan, 1988, p.9). A redução fenomenológica especifica a estrutura essencial da situação existencial da teórica acadêmica feminista em sua teorização. A interpretação fenomenológica explica o sentido da teorização feminista como um fenômeno no contexto da acadêmica feminista envolvida com a teorização feminista.

    Descrição Fenomenológica da Teorização Feminista

    O esforço do feminismo acadêmico nos últimos vinte anos tem sido, em grande parte, uma luta por sua legitimação como uma disciplina, no sentido tradicional. Esta luta envolve interesses tradicionais de legitimação no trabalho acadêmico e interesses inéditos da acadêmica feminista em encontrar legitimidade em sua própria experiência como mulher.

    Em relação ao interesse tradicional na academia, as feministas estão interessadas primeiramente na metodologia. Dois esforços emergem: o uso da metodologia dominante disponível para estudar como tornar a experiência da mulher visível e a necessidade de reconsiderar os modos como a metodologia dominante funciona para excluir a experiência da mulher.

    O lado inédito da legitimação é o fato das feministas interrogarem a si mesmas sobre o sentido de ser uma mulher acadêmica envolvida com a teorização acadêmica. A acadêmica feminista depara-se com a questão de que tipo de sentido ela quer para si enquanto mulher.

    Os vinte anos de história do feminismo acadêmico parece ter sido vinte anos de história de fracasso do método, em dois sentidos. O feminismo acadêmico identificou implacavelmente as falhas dos métodos e metodologias dominantes (em disciplinas americanas) em avaliar a experiência da mulher. E o feminismo acadêmico falha por não encontrar um método e uma metodologia correspondente que possa avaliar adequadamente essa experiência.

    Desta forma, os textos feministas são divididos em dois grupos. A crítica feminista do método, que inclui Simone De Beauvoir, a Filosofia da Ciência Feminista e a Crítica Literária Feminista (influenciada pelo trabalho de Kate Millett). A crítica feminista do método, assim como a crítica feminista da cultura, baseia-se no fato de existirem duas categorias de gênero. Estas categorias criam diferenças, tanto na conduta real do pesquisador acadêmico, quantos nos eventos diários da vida que afetam diferentemente as pessoas de acordo com a categoria de gênero a que pertencem. O feminismo sem método incluindo as apropriações do Marxismo, as apropriações da Psicanálise, as apropriações do Marxismo e da Psicanálise (a Teoria do Ponto-de-vista Feminista) e o Feminismo Inalterado. Essas teorias problematizam a experiência das mulheres ao reconhecerem que esta categoria é indefinível, pois o feminismo é de fato, "a prática de políticas de todas as mulheres em face de sua impossibilidade teórica" (MacKinnon, 1987b, p. 136). E é nesse espaço de arte do impossível que o feminismo espera sair de sua apropriação de metodologias dominantes e discursos em direção à descobertas do possível.

    A descrição fenomenológica da teorização feminista é uma análise do discurso como um complexo de sete signos discursivos, estruturados em torno de duas questões centrais: crítica do método e apropriação do método. São os seguintes signos discursivos:


    1. a perspectiva existencialista satriana de Beauvoir aplicada analiticamente e dedutivamente à colocação da mulher dentro de um contexto de humanismo racional;


    2. uma perspectiva da filosofia da ciência feminista que se move progressivamente de um foco nas orientações da ciência empírica neo-humanista em direção à problematização de fundamentos humanistas-racionais de cada ciência positivista;


    3. crítica literária feminista que, similar à filosofia da ciência feminista, move-se progressivamente de um esforço para melhor representar a mulher na literatura em direção à problematização de representação;


    4. apropriações feministas do Marxismo;


    5. apropriações feministas da teoria psicanalítica;


    6. teoria do ponto-de-vista feminista e


    7. feminismo inalterado.

    Redução Fenomenológica da Teorização Feminista

    Enquanto a descrição fenomenológica toma textos feministas como Signos, a redução fenomenológica abstrai os Significantes dos Signos. O envolvimentos da acadêmica feminista com a teoria feminista implica uma convergência de uma multiplicidade de aspirações e descontinuidades. A teorização feminista não deveria ser uma experiência pessoal e idiossincrática, mas freqüentemente o é. Ela requer uma explicação fenomenológico-semiótica que questione o próprio sentido e, por outro lado, requer um questionamento da fenomenologia-semiótica como apropriada ao esforço acadêmico feminista para descobrir possibilidades existenciais para si mesma. Os quatro passos são definidos a seguir:


    1. A semiótica e a fenomenologia são colocadas como temáticas e comparadas, enquanto fenômeno ao outro fenômeno que é a teorização feminista, dentro de um contexto que é a metodologia.


    2. Na comparação, a pesquisadora usa estruturas interpretativas intuitivas aplicadas a sua experiência de vida uma estudante de pós-graduação e pessoa (mulher e feminista), estudando a filosofia da comunicação.


    3. Inversão do 2o passo: a pesquisadora usa sua experiência pessoal como acadêmica feminista mulher (estudante de graduação e pessoa) envolvida com a teoria feminista como uma estrutura interpretativa intuitiva em suas articulações de uma metodologia fenomenológica-semiótica (base para uma comparação interna entre a fenomenologia-semiótica e a teorização feminista).


    4. Delimitação mais específica de parâmetros da problemática na qual explora a crítica feminista à capacidade da prática acadêmica em acessar a experiência e o ponto-de-vista da mulher.

    O quarto passo é tornar claro o caminho percorrido pela teórica feminista – um caminho em evolução contínua.

    A redução da descrição da fenomenologia e a redução da descrição fenomenológica da teorização feminista acadêmica tem uma condição limite comum: a crítica ao empiricismo positivista pelo modo como concebe a percepção e a experiência humana. Ambos (fenomenologia e teorização feminista) insistem que teórico e pesquisador devem questionar a si próprios e ao seu mundo vivido como presentes em sua teoria e projeto de pesquisa. O limite comum identificado torna-se o contexto para o fenômeno continuar.

    Os objetos de consciência presentes na linguagem e no corpo compõem a constituição ontológica da pessoa. A consciência pode modificar a estrutura expressiva de seu meio circundante por causa de sua condição corpórea. A corporeidade da mulher constitui-se na temporalidade, espacialidade e sexualidade. A consciência constitui a si mesma. Nesta etapa de redução fenomenológica, faz-se uso da técnica de variação imaginativa livre. Ou seja, envolve-se com certos objetos de consciência (textos, significações, modelos de discurso) no processo de escrita da narrativa e organiza a investigação.

    O feminismo acadêmico representa a experiência da mulher e luta pela legitimação institucional na representação da experiência da mulher. Ele parte do fato de que a exclusão pode ser remediada pela inclusão e opera com a assunção implícita de que uma representação adequada é possível (como nos casos da Psicanálise, do Marxismo e da Crítica Literária). O feminismo acadêmico luta por legitimação pessoal e representação da experiência de alguém como mulher. Os escritos feministas na área da filosofia da ciência e da teoria e crítica literária interrogam como a experiência da vida diária em um campo dominado pelos homens pode influenciar, ou não, a sua própria concepção de mulher. O feminismo acadêmico descobre a sexualidade como uma experiência de generificação.

    A teorização feminista cria sua consciência: a mulher do ponto-de-vista da mulher. A feminista teórica envolve-se neste processo, falando e desejando através de seu corpo, situado no tempo e no espaço. A teoria acadêmica feminista reconhece a si mesma em comunicação consigo mesma – constrói-se a teoria da comunicação feminista. A descoberta da existência como um sentido existencial é uma descrição fundamental da teorização acadêmica feminista.

    Interpretação Fenomenológica da Teorização Acadêmica Feminista

    Exigências Metodológicas para a Construção de uma Teoria Feminista

    A interpretação fenomenológica especifica os elementos perceptivos ou os significados implicados na mesma prática. Ela descobre duas categorias de condições suficientes e necessárias: as relacionadas com os requisitos metodológicos e aquelas relacionadas com a situação existencial da acadêmica feminista. Os requisitos metodológicos da construção da teoria feminista são a adoção da metodologia semiótico-fenomenológica e dos esquemas interpretativos intuitivos que possibilitam a descoberta da estrutura essencial da construção da teoria feminista. Eles se dividem em dois argumentos centrais, cada um divido em três sub-argumentos.

    1A. a teorização feminista requer explicitação da relação teórico-teorização (condição do capta);

    1B. a teorização feminista requer que teoria e método possam ser questionáveis (condição de validade);

    1C. a teorização feminista requer a reconceitualização do propósito de teoria e pesquisa (condição de metodologia).

    2. A teorização feminista assume uma postura semiótica quando integra sua focalização (condição suficiente) das categorias ausentes constituintes das normas culturais como fenômeno do mundo social, conforme explicação a seguir:

    2A. a teorização feminista compreende gênero, identidade e experiência como conseqüência de uma convergência complexa de relações (condição metodológica);

    2B. a teorização feminista compreende a necessidade de encarar múltiplas relações (condição de validade);

    2C. a teorização feminista compreende categorias ausentes e relações como contíguas à cultura (condição do capta).

    Nove combinações são possíveis e cada uma pode ser tomada como um critério temático correspondendo ao critério anunciado na problemática. Cada um explica as significações indicadas a seguir.

    1A – 2A. A exigência feminista de que a relação entre quem teoriza e teorização requer a compreensão feminista de gênero, identidade e experiência como conseqüência de uma convergência complexa de relações. E, a compreensão feminista de gênero, identidade e experiência como conseqüência de uma complexa convergência de relações exige que a relação entre quem teoriza e teorização seja explicitada. Capta é, assim, uma condição necessária para metodologia como condição suficiente.

    1A – 2B. A exigência feminista de que a relação entre quem teoriza e teorização seja explicitada requer a compreensão feminista da necessidade de se envolver diferentemente com múltiplas relações. E, a compreensão feminista da necessidade de se envolver diferentemente com múltiplas relações exige que a relação entre quem teoriza e a teorização seja explicitada. Aqui, capta é a condição necessária para validade como condição suficiente.

    1A – 2C. a exigência feminista de que a relação entre quem teoriza e teorização seja explicitada requer a compreensão feminista de que as categorias ausentes e as relações são contíguas à cultura. E, a compreensão de que as categorias ausentes e as relações são contíguas à cultura exige que a relação entre quem teoriza e teorização seja explicitada. Capta é a condição necessária para qualquer outro capta (incluindo sua ausência) como condição suficiente.

    1B – 2A. A exigência feminista de que a teoria e método tenham a capacidade de interrogar a si mesmos a partir de sua prática requer a compreensão feminista de gênero, identidade e experiência como uma conseqüência de uma complexa convergência de relações. E a compreensão feminista de gênero, identidade e experiência como uma conseqüência de uma complexa convergência de relações exige que teoria e método feminista tenham a capacidade de interrogar a si mesmos a partir de sua prática. A validade torna-se a condição necessária para qualquer metodologia usada como uma condição suficiente.

    1B – 2B. A exigência feminista de que a teoria e método tenham a capacidade de interrogar a si mesmos a partir de sua prática requer a compreensão feminista da necessidade de lidar diferentemente com múltiplas relações. E, a compreensão feminista da necessidade de lidar diferentemente com múltiplas relações exige da teorização feminista de que teoria e método tenham a capacidade de interrogar a si mesmos a partir de sua prática. Então, validade como condição necessária pode ser reflexiva a si mesma como uma condição suficiente.

    1B – 2C. A exigência feminista de que a teoria e método tenham a capacidade de interrogar a si mesmos a partir de sua prática requer a compreensão feminista das categorias ausentes e relações como contíguas à cultura. E, a compreensão feminista das categorias ausentes e relações como contíguas à cultura implica a exigência (idem) da teorização feminista de que teoria e método tenham a capacidade de interrogar a si mesmos a partir de sua prática. A condição necessária de validade exige que o capta seja tomado como uma condição suficiente.

    1C. – 2A. A exigência feminista de que o propósito de teoria e pesquisa (método) seja reconceitualizado requer a compreensão feminista de gênero, identidade e experiência como conseqüência de uma complexa convergência de relações. E, a compreensão feminista de gênero, identidade e experiência como conseqüência de uma complexa convergência de relações implica na exigência feminista de que o propósito de teoria e pesquisa (método) seja reconceitualizado. Metodologia como uma condição necessária exige que o método seja reflexivo como sua própria condição suficiente.

    1C – 2B. A exigência da teorização feminista de que o propósito de teoria e pesquisa (método) seja reconceitualizado requer a compreensão feminista da necessidade de lidar diferentemente com múltiplas relações. E a compreensão feminista da necessidade de lidar diferentemente com múltiplas relações implica a exigência da teorização feminista de que o propósito da teoria e pesquisa (método) seja reconceitualizado. A condição necessária de metodologia exige validade como sua condição suficiente.

    1C – 2C. A exigência da teorização feminista de que o propósito de teoria e pesquisa (método) seja reconceitualizado requer a compreensão feminista das categorias ausentes e relações como contíguas à cultura. E a compreensão feminista das categorias ausentes e relações como contíguas à cultura implica a exigência da teorização feminista de que o propósito da teoria e pesquisa (método) seja reconceitualizado. Metodologia, como condição necessária exige capta como uma condição suficiente.

    Conclusão

    Este estudo identificou seis orientações teóricas feministas como contextos discursivos explícitos dos quais partiu-se para explicar as significações pré-reflexivas e implícitas que constituem a teorização feminista. A redução da descrição da teorização feminista revelou dois temas principais: 1) a teorização feminista implica a colocação semiótica dos objetos ontológicos e cria sua consciência: a mulher do ponto-de-vista da mulher; e 2) a teorização feminista implica uma teoria da comunicação feminista onde ela se reconheça em comunicação consigo mesma.

    A teorização feminista envolve um esforço para revalorizar a mulher do ponto-de-vista da mulher no mesmo contexto em que a teoria feminista identificou a representação indesejável de mulheres em primeiro lugar. Nesse contexto, a teorização feminista cria "a mulher do ponto-de-vista da mulher" em um processo no qual a acadêmica feminista primeiro identifica sua existência como uma pessoa e mulher generificada, em um sistema cultural onde ser mulher generificada é ser Outra. A teórica feminista percebe as representações culturais de mulher codificadas de acordo com a condição de Outra de mulher relativa ao homem. Esses códigos de Outro são identificados na ciência, literatura, filosofia e nas inter-relações diárias entre homens e mulheres, especialmente no contexto da sexualidade. Contudo, dentro do código de Outro, a teoria feminista estabelece uma oposição e coloca a mulher como Sujeito semelhante ao Homem. Essa oposição falha em alterar ou recodificar o código de acordo com outro código, isto é, comete o mesmo erro que o humanismo ao assumir que a representação de uma pessoa é possível, do mesmo modo que alguém pode conceber que um referente por ele mesmo pode designar uma significação conclusiva.

    Contudo, a teoria feminista requer esforços mais radicais do que simplesmente abalar a noção de que a mulher do ponto-de-vista da mulher deve ser concebida como uma questão de representação correta em primeiro plano. A esse respeito, a noção de mulher é problematizada no contexto de experiência e situação como existente dentro de um complexo sistema cultural de significado. Em vez de olhar para os modos nos quais as mulheres são representadas, a problematização da experiência das mulheres desloca o foco para o processo pelo qual o feminismo conceitua a experiência da mulher em primeiro plano. Como resultado desses esforços, a teoria feminista focaliza uma ampliação da consciência como método e lógica do feminismo. A prática feminista da ampliação da consciência, revelou, após tê-la envolvido, que as questões primárias das mulheres dizem respeito à sua situação como mulher generificada, centradas em torno de questões de sexualidade e poder. A sexualidade, compreendida como o locus do sentido culturalmente sedimentado de mulher torna-se o foco do discurso e, então, da experiência das mulheres em envolver-se com a teoria feminista.

    A ampliação da consciência estabelece uma oposição fundamental entre uma pessoa e seu desejo e o desejo de alguém como um ser sexual generificado mulher, e de alguém naturalmente percebido, a experiência pré-consciente de sexualidade. Deste modo, a ampliação da consciência implica em um método que compartilha da realidade corpórea da existência em que compreende a si (consciência corpórea) como existindo através de um corpo que é tanto sujeito para si mesmo como um objeto para outro. Isto é, o método de ampliação da consciência, enquanto inquérito a "uma situação intrinsecamente social, misto de pensamento e materialidade que é a sexualidade das mulheres em um sentido mais genérico" (MacKinnon, 1982, p.29) compreende que "eu posso ser visto como um objeto e tento ser visto como um sujeito" (Merleau-Ponty, 1981, p.167). Através do envolvimento com uma oposição fundamental entre consciência (consciência da experiência) e experiência (experiência da consciência), a teórica feminista descobre a opacidade de ambigüidade como o horizonte de sentido através do qual ela se envolve em uma oposição semiótica de objetos ontológicos de consciência.

    A especificação de exigências metodológicas para a construção da teoria feminista e a situação existencial (experiência de vida) tomada pela acadêmica feminista envolvida com a teoria feminista designa a uma relação específica entre teoria e prática. Essa relação específica exige que a acadêmica feminista envolva-se em seu mundo vivido existencial onde escolhas são feitas dentro de um horizonte de significação possível (ambigüidade) no contexto de sexualidade e desejo.

    A teoria e prática da teorização feminista afirma-se no esforço de construção da teoria feminista que emerge da prática da ampliação da consciência. Isto quer dizer, é somente na prática do feminismo acadêmico que a praticante especifica as condições nas quais prefiguram a emergência da prática em primeiro plano. Tendo-se envolvido com esta prática, a construção da teoria feminista pode especificar as condições de sua prática. Desde que a teoria como discurso excede, constantemente, a consciência imediata de um praticante, a construção da teoria feminista exige um constante envolvimento em sua prática como modo de continuar a descobrir no que estava envolvida momentos atrás. Deste modo, o feminismo acadêmico, como construção da teoria feminista, participa no fazer da própria experiência da pessoa, somente em um contexto de contingência. Para a acadêmica feminista apreender acuradamente o modo no qual ela participa na contínua transformação de si mesma e do mundo, ela mesma deve tomar sua própria compreensão como contingência relativa aos horizontes ambíguos de sentido dentro dos quais ela pré-conscientemente dá sentido a sua experiência. Então, a teórica feminista descobre em sua prática que se ela deseja envolver-se com o feminismo, como uma idéia que representa uma possibilidade, ela deve descobrir aquelas possibilidades que ela já realizou em sua execução do feminismo como possibilidade.

    Notas


    1. Mariane L. de Souza, psicóloga e mestranda em Psicologia do Desenvolvimento, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


    2. Jacqueline M. Martinez, PhD pela Southern Illinois University (Carbondale, EUA).


    3. Tomando como base de referência a realidade acadêmica americana, da qual uma das autoras faz parte.


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