- Seu nome?
- Cloakroom Near. Mas os amigos me chamam de Clone.
- Onde nasceu?
- Nos laboratórios da Advanced Cell Technology, em Massachusetts.
- Nome dos pais.
- Michel West, Robert Lanza e José Cibelli.
- Nasceu de três homens?
- Sim, não fui gerado como os demais seres humanos. Sou filho de
intensas pesquisas e altos investimentos. Ao me fecundar, meus pais
só tiveram prazer intelectual. E uma grande emoção: a de serem os
primeiros a fabricarem um clone humano.
- Então você não tem mãe nem avós, como todos nós?
- Sim, tive mãe. Ela durou sessenta células e, minha avó, seis. Só eu
logrei atingir a reprodução celular completa.
- E como se sente gerado por obra e graça da ciência?
- Tenho complexo de joelho.
- Explique melhor.
- Minha célula-tronco foi retirada da perna de um paraplégico.
- Ah, entendo...
- Sinto-me também rejeitado.
- Por quê?
- A mulher que poderia ter sido minha mãe natural abortou o óvulo que
trazia nas entranhas para vendê-lo ao laboratório no qual nasci.
- Mas você não se dá conta de que a sua existência é tão importante
para o progresso da ciência quanto a descoberta da roda para a
tecnologia ou os cálculos de Einstein para a física moderna?
- Eu queria ter uma família como todo mundo. A minha é tão esdrúxula
que até uma ovelha figura na árvore genealógica, a Dolly. Lamento
sobretudo a sorte de meus irmãos.
- O que houve com eles?
- Nasceram para sobressalentes. Nunca alcançaram vida própria. Foram
todos enxertados em doentes.
- E isso não é positivo?
- É escandaloso. Se os cientistas estivessem preocupados com a vida
humana, e não apenas com os lucros advindos da cura dos mais ricos,
eles acabariam com a fome no mundo. Para que criar clones se tantas
crianças não conseguem sobreviver?
- Mas você precisa melhorar sua auto-estima, convencer-se de que é um
verdadeiro milagre da genética.
- Como os alimentos transgênicos, geneticamente modificados e
nutricionalmente desaconselhados?
- Meu filho, não substime o seu valor.
- E tem mais uma coisa: sou apenas um clone. Não sou eu mesmo. Sou
uma reedição de outra pessoa. Por isso me chamo Cloakroom Near. É
como se o cara que doou a célula tivesse entrado no vestiário mais
próximo e trocado de roupa. Quem o viu antes e depois pode pensar que
se trata de duas pessoas
diferentes.
- É, as aparências enganam.
- E o seres humanos também, quando se metem a brincar de Deus.
- Sinto muito, mas não posso aceitá-lo como paciente.
- Por que, doutor?
- Você nem complexo de Édipo teve. Não tenho elementos para definir
seu quadro etiológico. O próprio Freud ficaria pirado se fosse atendê-lo.
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