ANTROPOSMODERNO


"Quem quer que haja construído um novo céu, só no seu próprio
inferno encontrou energia para fazê-lo!"
Nietszche

    O desamparo na clínica, o desamparo na arte-que pontos de contato guardam entre si ? Primordialmente, a exigência de trabalho.O desamparo enquanto fonte de angústia, marca traumática essencial e excessiva, produz seus efeitos na constituição subjetiva. A qualidade desses efeitos varia numa escala demarcada por dois polos.Um deles é o que pretendemos desenvolver ao longo dessa exposição como uma operação energética laboriosamente criativa e original.O outro aponta para a fixação melancólica num sentimento de perda irreparável, sentimento esse que se desdobra igualmente em duas variáveis.

    Da primeira resulta um funcionamento sistemático onde o "resto" da ruína da onipotência resulta numa desilusão escancarada através de uma lucidez chapada e improdutiva.Quem se encarrega de exibí-la despudoramente é um sujeito submerso num vácuo que reduz ao mínimo um eu repetitivamente ocupado em não gerar mais do que a constatação exaustiva da falta do sentido de existir.

    O único prazer possível consiste nessa denúncia chocante que ele impõe a si e ao outro, como uma paixão pela qual se encontra obcecado.A outra variável é travestida numa reação ao vazio de identificações que mascara a miséria inflando o eu maniacamente de artefatos ilusórios os quais tamponam muito provisoriamente essa angústia. O padrão imediatista da cultura dos nossos dias contribui ativamente para esse modelo,já que ela tem o maior interesse na alienação e no descompromisso.

    Essa cultura instiga ao Ter, a incorporação de artefatos que provocam demanda mas que não são geradores de desejo, o único móvel que encaminharia realmente para a subjetivação. Seduzidos por apelos fascinantes, os seres manipulados rendem-se às idealizações que os afastam cada vez mais das construções de pertinência e de filiação.Esses sujeitos são violentamente arremetidos para uma falsa concepção de proteção, que na verdade os interessa, porque camufla o desamparo com o qual temos horror de nos confrontar pela dimensão trágica de que este se reveste.

    O preço pago por essa alienação é alto: o acúmulo, o excesso que sobrecarrega o consumo voraz desses "produtos" enganosamente gratificantes anestesia de modo muito precário a angústia.Entretanto, privando de crítica, gera seres mais embrutecidos, menos sutis, mais amortecidos.Configura-se um sistema muito próximo ao de estímulo-descarga,reduzindo ao mínimo a riqueza da produção criativa.Não que implique finalmente a liberação do mal estar, ele continua imperando mas numa tonalidade mais difusa,mais complexa, e,sobretudo,mais inapreensível, menos passível de ser simbolizada.

    Que compromisso tem hoje e com que instrumentos conta o analista da atualidade para dar conta dessa nova feição da demanda, mas reconhecida talvez pela estranheza que habita seres sem desejo e que , portanto,não tem o que formular.Se não é da natureza do recalque, o que se tem então para acessar quando já nos encontramos tão distantes dos pacientes ideais de Freud, aqueles "passíveis de análise" porque capazes de transmutar seu sintoma numa neurose de transferência, levando do suposto saber a desidealização e assunção da falta ? Se justamente é mais do já desiludido que tratamos hoje, aquele que se não se encontra sobrecarregado de ideais é justamente porque carece de um ideal mínimo que provoque um desejo e sua suspensão, como um grito parado no ar, mas elemento fundamental e constitutivo da subjetividade.

    Mais do que qualquer outra parece ser essa a questão mais aflitiva com que nos deparamos depois da queda de alguns ícones das mais variadas naturezas,políticas,religiosas, filosóficas,que sustentavam a referência a ídolos e ideais.Tal como em suas mais remotas fundações,quando a Psicanálise se viu confrontada com o desafio de penetrar um "continente negro", estamos ainda às voltas com decifrar o enigmático mas que parece Ter hoje uma feição distinta.A sujeição passa quase desapercebida quando se apregoa um direito de escolhas que na verdade já foram previamente determinadas.O excesso na oferta faz parecer que é muita e diversificada a apresentação de objetos reais, fetiches que na verdade obnubilam a visão do que falta e do que não se domina.

    A saturação ainda assim não dá conta, mas os que aterrisam nos consultórios não sabem dizer do que sentem falta.Uma vaga culpa os invade,porque não lhes basta a felicidade encomendada e estereotipada que lhe convidam a desfrutar.De um modo geral muito bem informados mas muito pouco familiarizados com a introspecção, sentem provavelmente a falta do "si mesmos", do contato com o que é genuinamente seu ainda que isso inclua sua trágica humanidade.Esta com certeza o pano de fundo do seu legítimo dilema que se encontra impedido de acessar.

    Perde-se assim a matéria prima sem a qual não há o que construir. Porque o desamparo, se não pode ser evitado, pode ser trabalhado, desde que ele possa ser vislumbrado.E é desse esforço que advém o criativo no humano, o que determina o mais além ,o desdobramento e a mobilidade de energia que barra o mortífero.Uma "outra" coisa (diferente da Coisa-das ding)se viabiliza então.Aí surge o sujeito na sua rebeldia a um destino sinistro e inelutável.Aí nasceu o herói que tece com os elementos de sua própria ferida narcísica uma diferença que o arranca da mesmice e da repetição, da fixidez da trajetória à qual já está predestinado independente de si.

    Freud,esgotado em sua busca e confrontado com seus limites,apontou,quando já não conseguia seguir adiante no trabalho sobre o mistério: "consultem os poetas". Intuiu que a arte era uma resposta a todos os óbices. Sabia do seu poder transgressor e revolucionário.Optei como Freud por recorrer a um artista e sua construção libertária para falar desse ato heróico de extrair do auto-reconhecimento de sua sinistra realidade uma "obra de arte" das mais arrojadas.Aí onde o sujeito pode até sucumbir diante de um sofrimento que destrói a linguagem e onde portanto ele se perde pode também encontrar, extraindo de suas próprias entranhas doloridas, uma "outra" estética diferente da beleza convencional. Uma beleza terrível, mas bela ainda assim na sua verdade reveladora e corajosa, no limite máximo do humor e do trágico, da irreverência e do compromisso com projetos nunca traídos ideológicos e amorosos.

    Frida Kahlo,consagrada pintora mexicana,em suas próprias palavras essa "...quase assassinada pela vida", forjou na própria carne dilacerada seu estilo de ser, sua transcendência, e talvez seja um dos modelos exemplares de que o desamparo pode, mesmo como fonte permanente de angústia,ganhar uma feição criativa.Impossível não reconhecer em sua obra a legitimação de sua dor de existir reinventada pictoricamente e confirmada , traduzida em ato, através de seu discurso, em seu diário e em suas cartas apaixonadas.

    Uma vida que ,datada do início do século,foi perpassada pelo sofrimento físico. A paralisia infantil na tenra infância deixa-lhe como sequela um rude golpe narcísico com rótulo: torna-se a Frida perna de pau.Mais tarde,o violento acidente urbano aos dezoito anos literalmente despedaçou seu corpo e a fez pena a vida inteira, fazendo-aainda submeter-se a trinta e duas cirurgias,vinte e nove anos de dor contínua e finalmente a uma amputação da perna que não arrefeceram, apesar de tudo, sua resistência obstinada.Essa dor foi claramente reconhecida por ela ao referir-se ela própria ao acidente: "...e a sensação que desde então nunca mais me deixou de que meu corpo concentra em si todas as chagas do mundo". E ainda: "minha pintura carrega em si a mensagem da dor. Creio que ela interessa pelo menos a algumas pessoas".

    E, contudo, a pintura não nasceu nela de uma "vocação precoce". Surgiu sob dupla pressão: um espelho em cima de sua cabeça que a importuna, e bem no fundo de si mesma uma dor que vem à tona. Dois elementos que se conjugam e fazem a pintura aflorar.Pintura que transbordava de seu corpo , de suas chagas abertas, de sua solidão. Justificando a abundância de auto-retratos disse: "pinto a mim mesmo porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor"(Fotos 1 e 2).

    Esse trabalho contínuo de recomposição de sua imagem, essa luta pela reestruturação interna, como num mosaico mexicano, foi traduzida assim em suas próprias palavras: "Não estou doente.Estou partida.Mas me sinto feliz por continuar viva enquanto puder pintar"(Foto 3).



    Recusava-se veementemente incluir-se como pintora surrealista."Não sou surrealista,pinto a minha própria realidade". Realidade essa que também precisou recobrir com muitos véus. Ela que na adolescência pertenceu a um grupo insolente e se orgulhava de apresentar em roupas masculinas(Foto 4)

    ,atendia as demandas fantasiosas do amado, o também ilustre e revolucionário pintor Diego Rivera,e esmerava-se , mesmo no leito, em vestir-se com as marcadamente femininas roupas típicas da tradição mexicana. Os adornos abundam e daí surge nessa esfolada viva em toda sua pujança os emblemas de uma indiscutível feminilidade (Foto 5).

    No retrato do casal pintado por ela , a figura de Diego é consistente, sólida , enquanto ela quase levita.Seus delicados pés mal tocam o chão. E é Diego que tem a palheta nas mãos, o atributo artístico é reconhecido nele.Ela é aqui...apenas uma mulher.

    A aspiração à maternidade tampouco lhe foi concedida.Três abortos obrigam-na a Ter que dar conta de mais esse luto."Pintar completou minha vida.Perdi três filhos e uma série de outras coisas, que teriam preenchido minha vida pavorosa.Minha pintura tomou o lugar de tudo isso.Creio que trabalhar é o melhor".(Da autobiografia datada de 1953)-Foto 6.

    Ressalta em sua obra o inusitado da representação do corpo fruto de uma percepção feminina que nada tem em comum com os nus idealizados dos pintores masculinos. Suas representações do corpo e da sexualidade feminina, desafiando os tabus da época, irrompem numa nova versão.

    A determinação de trabalhar sua dor também foi ao longo de sua existência o resultado de um duro embate onde a idéia da morte não ficava excluída mas presente sempre em suas próprias palavras como uma "saída enorme e silenciosa"(Foto 7).

    Oscilou muitas vezes entre uma proclamação eufórica como "Para que preciso de pés quanto tenho asas para voar?" e registros diametralmente opostos como o inscrito no diária em fevereiro de 1954: "Amputaram-me a perna há 6 meses,deram-me séculos de tortura e há momentos em que quase perco a razão.Continuo a querer me matar.O Diego é que me impede de o fazer ,pois a minha vaidade faz-me pensar que sentiria a minha falta.Ele disse-me isso e eu acreditei. Mas nunca sofri tanto em toda a minha vida.Vou esperar mais um pouco...".

    A última entrada em seu diário: "Espero a partida com alegria...e espero nunca mais voltar...Frida". Pode se imaginar por esses áridos depoimentos o esforço de ligação de um psiquismo que tem que criar as condições biológicas do existir quando o apelo de deixar fluir na direção da morte, do alívio de um sofrimento tão intenso, se torna um convite tão sedutor(Foto 8)

    .E é a intervenção do outro (a menção de Frida a Diego) que torna esse organismo viável.O desamparo humano, que é construído na prematuridade biológica, está constantemente posto,paradoxalmente traumático e constitutivo,estrutural e impossível de ser dominado.É o outro, tudo que advém dele e de onde ele se encontra inserido que pode interceptar esse fluxo aí onde se inventa um objeto e se erotiza sua relação com ele(Foto 9).

    É evidente que processar isso implica muito trabalho no sentido da preservação dos objetos que tendem a desaparecer no vácuo onde as representações se diluem e resta só a tensão em seu excesso.É isso o desamparo, esse vazio pulsante.

    Frida Kahlo parece ter calcado um ponto de ancoragem identificatório na figura do pai, fotógrafo, ele também reprodutor de imagens e com quem aprendeu a revelar, retocar e colorir fotografias(Foto 10).

    "Meu pai foi para mim um grande exemplo de ternura,de trabalho...e acima de tudo de compreensão de todos os meus problemas".

    Frida parece ter percorrido um caminho da identificação à potência paterna a feminilidade com enorme custo.Sua relação com a mãe parece ter sido ambigua.Quase que imediatamente grávida após seu nascimento, esse fato determinou que Frida fosse amamentada por uma ama contratada "cujos seios eram lavados imediatamente antes de eu mamar" (Foto 11).

    Em um de seus trabalhos que considerava mais vigorosos Frida aparece com cara de mulher adulta e corpo de criança nos braços de sua ama, "com leite a escorrer dos seios dela como se fosse dos céus". A ama índia, nua da cintura para cima, tem uma máscara de pedra teotihuacan pré-colombiana em vez da cara.Salta da pintura a falta de contato com o olhar da ama.Contratada exclusivamente para amamentá-la, não deve ter havido qualquer relação pessoal com o bebê,daí a referência de Kahlo à sua própria pintura: "sem qualquer emoção". A despeito de tudo, Frida parece ter costurado internamente uma intensa relação com a mãe-terra,seu México amado e defendido mesmo nas mais adversas condições externas e internas, inerentes às suas limitações.

    De um jeito ou de outro a artista recuperou a história de sua descendência e representa literalmente esses laços de pertinência em uma "árvore genealógica" em que se inclui, aos pais e aos avós de diferentes origens(Foto 12).

    Situa-se e apossa-se assim de seu lugar numa cadeia histórica, através desses laços que amarram o sujeito numa referência e impedem que ele se sinta nada mais que um corpo perdido no espaço (Foto 13).

    No entanto, ninguém sente esses laços apertados para sempre, eles se fazem e desfazem-se constante e continuamente. Frida também teve que se haver com essa frágil tessitura e é na relação amorosa que tem que trabalhar sua desilusão, sua penosa desfalicização.Seu ideal de completude, o fusional que aplaca a dor do desamparo só pode ser simbolizado mas não realizado.

    As duas Fridas(Foto 14)

    , pintado pouco após o divórcio de Diego,sinaliza o corte dilacerante que a realidade lhe impõe.A Frida objeto de amor de Diego e seu alter ego tem expostos seus corações ligados um ao outro apenas por uma artéria. A Frida mexicana amada por Diego tem na mão um amuleto com a imagem do marido.A parte rejeitada européia de Frida corre o perigo de se esvair em sangue até a morte. Essa hemorragia narcísica quando não é estancada desemboca na melancolia , a menos que o trabalho de elaboração possa produzir uma assunção positiva do desamparo."Por que o chamo meu Diego? Nunca foi, nem será meu.É dele mesmo."

    Quanto custa essa assunção, que cada um só tem a si e nada mais? Não tem ao outro e o que tem de si, ainda assim, é frágil, limitado e provisório.É isso o desamparo, e o que quer que se possa criar só pode ser tecido a partir desse ponto crucial como Frida bem o constatou.
    "Eu vou mal e irei pior ainda mas aprendo pouco a pouco a ser só, e isso já é alguma coisa, uma vantagem, um pequeno triunfo". A vitória é possível , uma vez que na condição humana, no dizer de Pontalis, somos desamparados por vocação. Aonde quer que doa sou eu , nos diz ele. E o que mais dói é ser possuído e não possuir . "É viver num corpo que é um sepulcro que nos
    aprisiona (segundo Platão) do mesmo modo como a concha aprisiona a ostra"(Foto 15).

    Na tela "eu sou um pobre veadinho ferido ", Frida representa esse cárcere nesse corpo violentamente atacado que contrasta com o olhar fixo e impenetrável , exprimindo a fôrça da vontade que a fazia suportar seu martírio.

    Aos avatares dessa relação eu-corpo, Piera Aulagnier pela dimensão limite dessa experiência chamou de filiação. Forjada num encontro inaugural entre o Eu e o espaço corporal, daí emana tanto a possibilidade de prazer quanto de sofrimento, e é ela que vai modulando a relação do eu com a realidade. Uma relação naturalmente conflituosa e ambivalente que , por conta dessa qualidade, dota de uma potencialidade persecutória a estranheza vivida nesse embate mortífero.A iminência permanente da destruição do eu e do corpo, agenciada, seja por um, seja por outro, situa a castração no seu ponto limite, a sua corporificação. É nesse ponto provavelmente que o desamparo se agudiza dramaticamente.

    A tarefa hercúlea que se apresenta ao eu é que ele consiga coabitar com seu corpo, simultaneamente seu aliado e seu perseguidor. Investir e tomar posse do seu "habitat" a despeito do desconforto que essa relaçào lhe impimge. O eu é obrigado a se dobrar ao reconhecimento de que a autonomia é do "outro", desse objeto corpo ao qual está submetido.Ou senão construir toda sorte de "compromisso" neurótico, perverso,psicótico,que o permita driblar até onde der o reconhecimento da realidade do corpo e de suas exigências.Em última instância, o eu, inconformado com sua impossibilidade de recusar a morte, banca o desafio, disputa a autonomia e afirma, maniaca e triunfantemente, seu domínio impedindo o corpo de viver.

    Aonde o ódio aniquila o desejo a morte é inevitável.Ou ela ou o negativismo do melancólico, que até se permite viver, mas não mais para um desejo e sim contra um objeto que odeia. Na expressão literal de Piera como "uma última razão que as vezes o eu pode se dar para que o trabalho que o estado de ser vivo exige, guarde umsimulacro de sentido".

    No primeiro caso, o da morte escolhida, há uma óbvia recusa ao trabalho que o estar vivo impõe. Na Segunda hipótese não se pode dizer que não há trabalho, ele é mesmo intenso e desgastante, mas moldado na pura repetição. Gira sempre em torno do mesmo eixo, muito mais uma obsessão do que um projeto. Não se desdobra nunca. Mais descarga do que elaboração, carece de qualquer qualidade criativa, ainda há vida, mas a esperança já está morta e a operação já não é mais simbólica.

    Retornando à nossa referência paradigmática é diverso do que se representa na obra de Frida Kahlo. Mesmo quando ela se pinta sem esperança (Foto 16)

    seu desalento é representado ao vivo e a cores. Ou ainda dividida (Foto 17)

    como no auto retrato em que figuram na tela a imagem do corpo enfraquecido , violado e nu, indiferentemente virado para um deserto árido e fendido, imagem essa partilhada com sua vigorosa figura olhando determinadamente para o futuro com o colete numa das mãos e uma bandeira na outra, onde se inscreve um verso retirado de uma de suas canções favoritas: árvore da esperança, mantem-te firme. O Sol e a Lua, o desânimo e a posição combativa refletindo a dualidade do seu ser, o duelo titânico que se travava em seu interior.

    Recorro ao comentário do surrealista Andre Breton para falar da força vital desse duelo derramado em obra de arte: "...Acrescento que também não existe outra (pintura) mais exclusivamente feminina , no sentido de que, por ser a mais tentadora, ela prazeirosamente consente em se fazer alternadamente a mais pura e a mais perniciosa...A arte de Frida é um laço de fita em torno de uma bomba".

    As imperiosas limitações de Frida, se por um lado a imobilizaram drasticamente, criaram em contrapartida as condições para que sua energia refluísse em outras direções. Tendo-lhe caído nas mãos um livro de Freud, Moisés, o Homem e a Religião monoteista, inspirou-se nessa obra que a fascinou e produziu uma fantástica pintura premiada, Moises ou o núcleo da criação (Foto 18).

    A vida,a criação enquanto fonte de investimento estiveram presentes ao longo de sua penosa trajetória existencial. O desamparo nela conviveu com a potência e amalgamados constituiram a argamassa de um acervo que é hoje um legado precioso e respeitado. Das estéreis entranhas fez parir o sol e a vida (Foto 19)

    onde as plantas representantes do ciclo eterno da natureza simboliza igualmente os órgãos genitais masculinos e femininos.

    O sol, gerador da vida, está no centro de tudo.O feto que chora dentro das plantas e os pistilos lacrimejantes das flores representam a tristeza e a frustração de Frida pelo desejo não realizado. Obra que nos fez pensar no processo sublimatório como um trabalho constante de luto sobre as idealizações ilusórias. Nesse processo a falta é reconhecida, mas o que foi perdido gera uma outra coisa, o objeto se altera e serve de suporte para novos ideais. Assim, os fios se desdobram e uma trama pode ser tecida incluindo os buracos, os espaços vazios que fazem parte imprescindível do bordado como um todo.

    Começamos nossa digressão falando da arte e da clínica. O fio foi se desenrolando e traçou desenhos labirínticos,mas retorna agora ao ponto de origem. Se enquanto analistas não nos cabe fazer "arte", é no campo da transferência que se oferece a ousada possibilidade de romper com o instituído, de trabalhar na direção da alteridade, forçando uma brecha entre o eu e o outro, apavorante a princípio, mas de onde pode emergir, justo aí, aonde cai por terra a referência fálica, um outro registro.É o que emana desse vácuo com todo o horror que a experiência do que chamamos feminino em Psicanálise indica. No fim desse percurso, o analista tem que se haver com a sua solidão e o paciente com a dele.Um é testemunha do desamparo do outro e , voltando à sua marca original, cada um a seu jeito, porá o pé na estrada. Como Édipo, que depois de Ter os olhos vazados, segue seu destino errático. Tentando fazer dessa viagem que seja a mais singular e criativa possível .

    Bibliografia

    Auglanier,Piera Um intérprete em busca de sentido,II Ed.Escuta,1990-SP

    Birman,Joel Estilo e modernidade em Psicanálise,Ed.34Ltda,1997-RJ

    Kahlo,Frida -1910-1954-O diário de Frida Kahlo:um auto-retrato íntimo-Ed.

    José Olympio,1995-RJ

    Kahlo,Frida (compilação de Marta Zamora)-As cartas apaixonadas de Frida Kahlo,Ed.José Olympio, 1997- RJ

    - Kettenmann,Andrea Frida Kahlo-1907-1954.Dor e Paixão,Benedikt Taschen 1994,Germany.

    Pontalis,J.B. Entre le rêve et la douleur,Editions Gallimard,1977,France

    Pinheiro,Teresa O estatuto do objeto na melancolia-Cultura da ilusão,Ed.Contracapa,1998,RJ

    Sztajnberg,Rachel "Decifra-me ou te devoro": do enigma do discurso histérico

    Ao desafio do impasse melancólico na travessia do 1ºséculo de Psicanálise,Novembro/1995,Conferência da comemoração dos 100 anos da Psicanálise na SPCRJ;

    Corpo e imagem: representação da falta,falta de represen-Tação,Setembro/96-II Jornada de Psicanálise da Neurose da SPCRJ;

    - E o Messias não vai chegar? O futuro de uma desilusão, IV Forum Brasileiro de Psicanálise ,Setembro/1997.

    Rachel Sztainberg