ANTROPOSMODERNO
Sabias palabras de un conflito
Kátia Mendonça

A autora é Doutora em Ciência Política e professora do Mestrado em Sociologia da UFPA. E membro da Brahma Kumaris. http://www.nova-e.inf.br/midiadapaz/sabias_palavras.htm

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Sabias palabras de un conflito
Kátia Mendonça

Neste momento em que os tanques ainda estão estacionados em Belém na Judéia, cidade tão querida para os cristãos, e que a guerra entre palestinos e israelenses se agrava, relembremos dois homens não-cristãos cujas visões sobre o conflito seriam verdadeiramente proféticas.

Em 1938 Gandhi escreveu artigo em que falando dos judeus na Palestina dirá:?Eu não tenho dúvida de que eles estão indo pelo caminho errado. A Palestina da concepção bíblica não é uma área geográfica. Ela está em seus corações. Mas se eles olharem para uma Palestina geográfica como sua casa nacional, estão errados em entrarem nisso sob a sombra da pistola britânica. Um ato religioso não pode ser executado com a ajuda de baionetas ou de bombas. Os judeus podem se instalar na Palestina apenas com a benevolência dos árabes. Eles deveriam buscar converter o coração árabe. O mesmo Deus que rege o coração árabe rege o coração judeu. Eles podem oferecer satyagrahara (a força da verdade no movimento da não-violência) na frente dos árabes e se oferecerem para ser atirados ou lançados no Mar Morto sem erguer um pequeno dedo contra os árabes. Fazendo isto eles terão a opinião mundial em favor de suas aspirações religiosas. Há centenas de modos de argumentar com os árabes se os judeus descartarem a ajuda das baionetas inglesas. Do modo como está eles são responsáveis junto com os britânicos pela espoliação de um povo que nada fez de errado a eles. Eu não estou defendendo os excessos árabes. Eu desejaria que eles escolhessem um modo não violento de resistir ao que eles justamente vêem como uma indefensável invasão sobre seu país?.

Martin Buber, pensador judeu e um dos fundadores de Israel em carta ao líder indiano discordará de Gandhi quanto ao que este considerava com uma aspiração não legítima, ou seja, a criação do Estado de Israel. Mas, ainda assim Buber era a favor de um estado bi-nacional israelense-palestino. Para além da controvérsia entre em dois cabe destacar suas percepções acerca da questão árabe-israelense.

Tanto Gandhi quanto Buber buscaram orientar suas lutas políticas por uma espiritualidade conferida por suas tradições religiosas, hinduismo e judaísmo, mas também para além delas. Ressalte-se que ambos foram rejeitados em muitos momentos por seus pares religiosos; Gandhi foi assassinado por um hindu e Buber passou mais de trinta anos sem pisar em uma sinagoga rejeitado por grande parte da comunidade judaica.

Além disso, é importante ressaltar que ambos em suas lutas políticas buscaram, não propriamente a instalação de Estados religiosos, hindu ou judeu, mas tanto na libertação da Índia quanto na constituição do Estado de Israel desejavam a presença de Deus na terra através da justiça social, ou seja, no espaço público. Isso previa a convivência pacífica com adversários históricos, no caso de Gandhi dos hindus com os mulçumanos e no caso de Buber dos judeus com os árabes.

Gandhi lutou junto aos mulçumanos pela independência da Índia e ao final, quando esta foi obtida, sua decepção foi imensa pois vira seu sonho de um país unido acima de divisões religiosas cair na constituição de dois estados de fundo religioso: o Paquistão, para os mulçumanos e a Índia para os hindus. Buber, por seu turno, sionista desde 1888, rejeitava o que ele chamava de ?um Estado Judeu com canhões, bandeiras e condecorações militares?. Um analista mais tarde diria que ?ele e seus companheiros trabalharam por uma Palestina bi-nacional baseada não em uma aliança colonial, mas na cooperação e paridade entre Judeus e árabes?. Sem esse diálogo e cooperação a paz atingida seria uma ?paz vazia, ?superficial? e tenderia rapidamente a se esvaecer:

?E quando esta paz vazia é alcançada, você seria capaz de ?combater o ?espírito do militarismo? quando os lideres do nacionalismo extremo facilmente convenceriam os jovens de que este tipo de espírito é essencial para a sobrevivência do país? As batalhas cessariam, mas cessariam as suspeitas? Haveria um fim à sede de vingança? Nos não seriamos compelidos, e eu quero dizer realmente compelidos, a manter uma postura de vigilância para sempre, sem sermos capazes de respirar (...) Este esforço incessante não ocuparia os mais talentosos membros de nossa sociedade??

Em 1958 Buber perceberá presente no Estado de Israel ?o mais pernicioso de todos os falsos ensinos, aquele de acordo com qual o caminho da história é apenas determinado pelo poder...enquanto a fé no espírito é retida somente como mera fraseologia?. Em 1962 tornará a lembrar que ?Israel cometeu atos os quais geraram nos habitantes árabes do Estado um sentimento que eles são cidadãos de segunda classe?.

Em ambos transparece a exigência de uma mudança na política se realizando a partir da mudança interior no indivíduo. Mudança essa promovida não por uma religião institucionalizada, mas por uma religiosidade aplicada em suas vidas privadas e públicas. Buber, último grande profeta judeu do século XX, passou trinta anos sem pisar em uma sinagoga e ainda assim afirmaria: ?que palavra da linguagem humana foi usada com tanto abuso, foi tão manchada, tão profanada como a palavra Deus? Todo o sangue inocente que foi derramado por ela roubou-lhe o brilho.? Gandhi lembraria que Deus está na política assim como está em nosso cotidiano, porque dentro de nós. Para Buber e para Gandhi violência é fazer calar o Outro, é mentir, é não dialogar. Ambos estavam certos em suas profecias. Suas palavras ainda ecoam entre nós que, surdos, nos recusamos a ouvi-los...






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