ANTROPOSMODERNO
Sexualidade feminina e oralidade: comer e ser comida
Aline E. Camargo Gurfinkel

Retomando a polêmica entre falocentrismo e concentricidade, este artigo ressalta a importância da sensorialidade, sugerindo a existência de um princípio de reversibilidade que a feminilidade põe em relevo.

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Sexualidade feminina e oralidade: comer e ser comida

Aline E. Camargo Gurfinkel

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Retomando a polêmica entre falocentrismo e concentricidade, este artigo ressalta a importância da sensorialidade, sugerindo a existência de um princípio de reversibilidade que a feminilidade põe em relevo.

Proponho, neste trabalho, uma incursão pela sexualidade feminina e pela oralidade, através de um conto de Ítalo Calvino. Neste, personagens viajantes nos transportam para um universo de sensorialidade e de feminilidade, e para uma dimensão da oralidade cada vez mais rara em nosso tempo e em nossa cultura.

Poderíamos dizer que ?no princípio tudo era boca?. Tal como o caos originário da teogonia, também na fundação do sujeito psíquico o ponto de partida da pulsão é caótico e aleatório. A pulsão, em sua parcialidade, flui em múltiplas direções, sendo marcada pelos eventos do acaso. A oralidade, enquanto momento de origem, vem bifurcar em duas direções o jogo pulsional: por um lado as pulsões de autoconservação e por outro as pulsões sexuais.

Muitos autores colocam o feminino do lado do pulsional, já que acompanha sempre o mais parcial do sujeito. Michele Montrelay1 faz um breve histórico das teorizações sobre o feminino, retomando uma publicação histórica de Chasseguet-Smirgel e diversos analistas2 ; nesta, é discutida a grande cisão teórica entre a abordagem freudiana, dita falocêntrica, e a abordagem dos seguidores de Jones, que trabalha com o conceito de concentricidade. O caráter concêntrico da sexualidade, mais claro na mulher do que no homem, refere-se à forma intrincada em que os sistemas arcaicos orais, anais e vaginais estão presentes na vida pulsional. Montrelay resgata do trabalho mencionado a idéia de que a dicotomia falocentrismo/concentricidade é superável através de uma integração dos conceitos, e considera que as contradições que surgem dessa integração são passíveis de serem ultrapassadas quando se parte da clínica; nela, os opostos convivem e os dois aspectos são claramente identificáveis.

A relação entre oralidade e sexualidade feminina é também muitas vezes apontada. Lemoine-Luccioni, num belo texto sobre a alimentação, coloca: ?O que comemos, então? Nada, provavelmente diria Lacan, como disse ao referir-se à anoréxica, em relação à qual acrescentou: ela embucha significante. Se a anoréxica nada come, a bulímica come tudo, todo o tempo. Uma e outra respondem, assim, a uma demanda materna. Uma não quer preencher-se, e a outra não quer esvaziar-se. O vazio e o cheio são dois fantasmas. Mas trata-se sempre do mesmo vazio, o que a mãe deixou ao esvaziar-se. (...) Sem dúvida, o corte entre a filha e a mãe é particularmente fértil em transtornos orais de toda classe?3.

Nesse trecho, Lemoine-Luccioni nos mostra como, para além da alimentação, o ato de comer é pleno em significados e nos remete diretamente às relações constitutivas do sujeito. Destaco o termo ?relação? pois, mesmo não se tratando de ?objetos totais? e de relação de objeto propriamente dita, há um outro sempre presente: ?...o homem não gosta de comer só, porque come sempre por alguém (ou contra alguém)?4.

Lemoine-Luccioni destaca ainda que não só uma pulsão é sempre parcial, como sempre extravasa por sobre outras pulsões, e dá como exemplo a situação de um homem e uma mulher que, quando já não podem fazer amor, se põem a comer. ?A perversão se define precisamente como uma pulsão desviada de sua meta. A perversão do gosto é muito conhecida. (...) É como se houvesse uma lei que estabelecesse que cada prazer transgride sua própria zona erógena, sua própria zona sensível, sem que se possa falar em perversão. Ora, a perversão poderia ser explicada por essa lei. Trata-se, então, de que cada pulsão e cada prazer deve escapar do paradigma para evitar a saciedade e, ao sair de sua especificidade graçasà transgressão, salvaguardar este prazer. A perversão seria então natural ao homem?5. Voltaremos à questão da perversão.

Ora, já encontramos, em A Interpretação dos sonhos, uma passagem na qual Freud, ao tratar da representação por símbolos nos sonhos, afirma que ?as mesas postas para a refeição e as tábuas também representam mulheres (...) Visto que ?cama e mesa? constituem o casamento, esta muitas vezes ocupa o lugar da primeira nos sonhos, e o complexo de idéias sexuais é, na medida do possível, transposto para o complexo do comer?6. Estas mesmas idéias são retomadas em ?O sentido dos sintomas?, a conferência XVII do ciclo de 1917. Ao trabalhar sobre um caso de neurose obsessiva de uma mulher, Freud conclui que, na formação do sintoma, o lençol da noite de núpcias foi substituído por uma toalha de mesa, e acrescenta ? referindo-se à analogia entre cama/lençol e mesa/toalha ? que não foi sem finalidade que estudou o simbolismo onírico: ?também nos sonhos, freqüentemente encontramos uma mesa que deve ser interpretada como uma cama. Cama e mesa, juntas, representam o casamento, e, assim, uma pode facilmente tomar o lugar da outra?7. Reafirma-se, assim, tanto no sonho como na neurose, a importância do simbolismo da mesa (e da alimentação) relacionado à sexualidade; é de se notar, especialmente, o fenômeno da transposição recíproca entre os dois elementos, de grandes conseqüências clínicas (lembremos, por exemplo, dos vômitos histéricos, da anorexia e das fobias alimentares).

Distingue-se, usualmente, a necessidade da alimentação do prazer obtido com ela; a necessidade está ligada à ingestão de alimentos, e o prazer às sensações supostamente originadas nas papilas gustativas, que funcionariam assim como ?zonas erógenas?. Mas como relacionar, em termos de oralidade, o auto-conservativo e o sexual? Qual é o lugar que o alimentar-se tem na pulsionalidade de um sujeito ao longo da vida? Será o mesmo para homens e mulheres? Será o mesmo entre diferentes culturas?

Para trabalhar estas questões, tomo como objeto de análise um conto de Ítalo Calvino: Sob o Sol Jaguar. Trata-se exatamente da situação comentada por Lemoine-Luccioni: um casal se põe a comer durante uma viagem que realiza ao México, dando outra dimensão a sua vida erótica. Deixam-se impregnar pela cultura mexicana através das papilas gustativas, em uma ?viagem? que empreendem juntos; ou, podemos dizer: é a viagem que faz trânsito na relação entre eles.

O conto inicia com uma descrição do ambiente do hotel no qual o casal está hospedado, um antigo convento. A primeira coisa que notam é um quadro: ?O quadro era uma grande tela escura que representava uma jovem freira e um velho padre, de pé, um ao lado do outro, as mãos ligeiramente afastadas do corpo, quase tocando-se. Figuras um tanto rígidas para um quadro do Setecentos; uma pintura com uma graça meio rústica própria da arte colonial, mas que transmitia uma sensação perturbadora, como um espasmo de sofrimento contido. (...) tinham sido o capelão e a abadessa do convento (ela de família nobre, lá entrara como noviça aos dezoito anos). A razão pela qual achavam-se retratados juntos era o extraordinário amor (...) que havia unido por trinta anos a abadessa e seu confessor, um amor (...) tal que, ao morrer o padre, a abadessa, vinte anos mais jovem, no intervalo de um dia adoecera e, literalmente, havia expirado de amor (...) para reencontrá-lo no céu?8.

Essa abertura enquadra o conto no tema do amor, de um amor tão intenso quanto ?casto?, tendo seu ponto culminante numa morte por amor.

Ao tomar contato com o drama ali retratado, o personagem fala de uma sensação de mal-estar: ?Assim trato de descrever o que me acontecia: o sentido de uma carência, de um vazio devorador; não posso adivinhar o que estivesse pensando Olívia, dado que silenciava. Depois Olívia falou. Disse: ?Gostaria de comer chiles en nogada?...?9. Somos, assim, transportados à dimensão gustativa do conto. Há uma linha associativa que vai de um drama de amor ? passando pela sensação de um vazio devorador ? para um desejo oral.

O conto é dominado, em grande parte, pelos pensamentos e reflexões do personagem que é o marido do casal de protagonistas. Sua reflexão se detém, quase todo o tempo, na relação deles enquanto casal, e os pensamentos são entremeados e enriquecidos pelos eventos da viagem. Ele nos descreve como seus pensamentos e os dela são intrincados: ?como acontece nos melhores momentos da vida de um casal, eu havia reconstruído instantaneamente o percurso dos pensamentos de Olívia, sem que fosse necessário mais uma palavra: e isso porque a mesma cadeia de associações se desenrolava também na minha cabeça, embora de modo mais lento e nebuloso, tanto que sem ela não teria podido ficar consciente disso?10.

Mais do que uma mesma cadeia associativa, vemos que os elos da cadeia estão entre os membros do casal, de maneira que é apenas por estarem juntos que ela pode se formar. Trata-se de uma ?livre associação? a dois: associação de idéias, associação amorosa...

O tema da culinária surge quando o narrador nos conta que a viagem já durava alguns dias e que no dia anterior estiveram em um restaurante ? outro claustro de convento ? e haviam saboreado antigas receitas das freiras. ?Tínhamos comido um tamál de elote, isto é, uma delicada farinha de milho doce com carne de porco moída e pimenta muito picante, tudo cozido no vapor com uma palha de milho; depois chiles en nogada, que eram pimentas vermelho-escuras, meio enrugadas, nadando num molho de nozes cuja aspereza picante e o fundo amargo se diluíam numa consistência cremosa e adocicada?11. Ficamos, nós leitores, completamente envolvidos a imaginar os sabores. Os personagens refletem então sobre a culinária produzida nos conventos, que tem um poder de ?(...) fazer vibrar as notas extremas dos sabores e associá-las em modulações, acordes e sobretudo dissonâncias que se impusessem como uma experiência sem confrontos, um ponto de não-retorno, uma possessão absoluta exercida sobre a receptividade de todos os sentidos?12. O autor descreve aqui uma experiência de transfiguração ou êxtase religioso que pode bem ser aproximada da experiência do orgasmo, tal qual o bebê de Freud após a mamada.

Os personagens, a partir daqui, querem saber sobre a vida das freiras: são informados de que elas eram filhas de famílias nobres, e que quando entravam para o convento levavam suas criadas. Nos diz Calvino: ?(...) ...assim, para satisfazer os caprichos veniais da gula, os únicos que lhes eram concedidos, as freiras podiam contar com um enxame alegre e infindável de executoras. E quanto a elas, só tinham que conceber e predispor e confrontar e corrigir receitas que exprimissem suas fantasias prisioneiras entre aquelas muralhas: fantasias de mulheres refinadas, inflamadas, introversas e complicadas, mulheres com necessidades do absoluto, com leituras que falavam de êxtases e transfigurações, martírios e suplícios, mulheres com exigências contrastantes no sangue, genealogias em que a descendência dos conquistadores se misturava com a das princesas índias ou das escravas, mulheres com lembranças infantis do aroma de uma vegetação suculenta e densa de fermentos, apesar de alimentada por aqueles altiplanos ensolarados?13.

Outra questão intriga os personagens, e somos também nós nela envolvidos: o que essas mulheres representavam de suas culturas? E assim, no conto, os personagens passam a refletir sobre a arquitetura, a história e a geografia daquele povo, e mais especificamente sobre o contexto da arquitetura sacra no qual os jesuítas rivalizavam com o esplendor das construções astecas. O autor tece um paralelo entre o êxtase religioso obtido pela abundância de ornamentos da arte barroca e os excessos obtidos pelo uso das quarenta e duas variedades indígenas de pimentas ?sabiamente escolhidas?. Ele emparelha, claramente, a culinária com a arte e a religião, tendo como denominador comum um certo efeito estético de êxtase ?sagrado?. Outro aspecto ressaltado é o da rivalidade entre os povos, e de como a guerra da conquista do passado verdadeiramente não terminou, pois se prolonga no campo da cultura: na arquitetura e, especialmente, na culinária. A luta não se encerrou com a dita vitória do conquistador.

É pela via das freiras que praticavam uma inventiva arte culinária que vamos nos aproximando do universo feminino do conto. Somos postos em contato com todas as inquietações daquelas almas prisioneiras a se transfigurar ? as freiras por um lado e suas servas por outro ? o que fica muito bem retratado pelo autor quando propõe que foi na junção destas duas inquietações femininas que emergiu uma nova arte, com efeitos devastadores: ?por meio de brancas mãos de noviças e mãos morenas de convertidas, a cozinha da nova civilização hispano-indígena tornara-se também campo de batalha entre a ferocidade agressiva dos antigos deuses do altiplano e a superabundância sinuosa da religião barroca...?14.

A protagonista capta, a meu ver, e a partir de uma ótica feminina, as inquietações daquela cultura: seus conflitos, sua paixão e sua violência. Enquanto o marido segue refletindo sobre o amor, ela passa a investigar com obsessão o tema da ferocidade dos deuses e de seus sacerdotes.

Em que estes vários temas se tocam? E qual o motivo pelo qual a experiência de êxtase frente à culinária teria esfriado as outras dimensões de prazer na vida amorosa do casal?

O personagem passa então a descrever a atitude da companheira Olívia, ao comer, detalhe por detalhe, observando-a atentamente no momento voluptuoso da degustação. Do nariz vai para a boca, da boca para os dentes e, ao acompanhar o movimento dos dentes, conclui: apesar de seus gestos faciais de prazer, ela não estava trancada em si mesma, e, sim, querendo comunicar a ele suas sensações. Estava querendo ?...comunicar-se comigo por meio dos sabores ou comunicar com os sabores por meio de um conjunto duplo de papilas, o seu e o meu?15. Belíssima descrição de algo que ocorre em uma relação amorosa, e que se expressa melhor pela via dos sabores do que pela da palavra; ou, se tomarmos os sabores como objeto, que a via da expressão seria, na verdade, as sensações do conjunto das papilas gustativas. Ele fala do desejo que Olívia tem de envolvê-lo em suas emoções, e entende que isso expressa a vivência de unidade do casal, na qual os prazeres da existência só são apreciados se partilhados por ambos; voltaremos a isso mais adiante. A cadeia de pensamentos a dois transporta-se para o campo de experiência sensorial ? e sensual ? gustativa.

A questão do deslizamento que se dá da dimensão erótica da sexualidade genital para a sexualidade oral é apontada e formulada como questão pelo próprio protagonista. Este se vê frustrado na expectativa que tinha de que o fogo crescente do paladar não tardasse a acompanhá-los na cama; isto não aconteceu, de modo que conclui que aquela culinária era, sim, afrodisíaca, mas apenas em si e para si. Ela estimulava desejos somente na esfera das sensações que os faziam nascer.

Podemos falar aqui em perversão16, na medida em que a sexualidade estaria se organizando exclusivamente em torno da satisfação oral? Ora, por outro lado, o próprio Calvino, ainda que apenas no campo da ficção, utiliza o termo ?sublimação? ao se referir às atitudes gastronômicas das freiras. A questão estaria igualmente colocada para a situação das freiras e para a relação do casal?

Voltando ao texto: ?Assim, estávamos na melhor situação para imaginar como podia ter crescido o amor entre a abadessa e o capelão: um amor que podia ter sido, aos olhos do mundo e deles próprios, perfeitamente casto e ao mesmo tempo de uma carnalidade sem limites naquela experiência dos sabores alcançada por meio de uma cumplicidade secreta e sutil?17. A posição do autor aqui é de sustentar o paradoxo segundo o qual o ?perfeitamente casto? e a ?carnalidade sem limites? não se excluem.

No que se refere à idéia do casal formando uma unidade ? o que se reduplica na relação entre a abadessa e o capelão ?, passa a haver uma gradativa problematização por parte do personagem. Da descrição do funcionamento do casal em seu aspecto de união, de complementaridade e de experiência compartilhada de prazer, este passa a falar de uma preocupação que lhe vai surgindo. Primeiro se pergunta se há uma paridade na relação entre eles ou se ele está se transformando em um ?complacente alcoviteiro? dela. Ele teme ser colocado em uma posição subalterna, mas logo espanta este pensamento ao entender que havia uma cumplicidade na paixão. Ocorre-lhe, então, que a mesma paixão era vivida por cada um conforme seus temperamentos: ?(...) Olívia, mais sensível aos matizes perceptivos e dotada de uma memória mais analítica onde toda lembrança permanecia distinta e inconfundível; eu, mais levado a definir verbal e conceitualmente as experiências, a traçar a linha ideal da viagem que tinha lugar dentro de nós simultaneamente à viagem geográfica?18. Assim, há a unidade da cumplicidade, mas através de diferentes temperamentos.

Poderíamos dizer que estes ?temperamentos? expressam algo do masculino e do feminino? Ele percebe que precisa fazer um movimento para se aproximar da ?viagem? que ela empreende, e o faz com certo esforço. Poderíamos pensar aqui numa feminilização da relação do casal?

Destas reflexões emerge a genial conclusão sobre a natureza do ?viajar?: uma ?verdadeira viagem, enquanto introjeção de um ?exterior? diferente do nosso habitual, implica em uma mudança total de alimentação, engolir o país visitado, na sua fauna e flora e na sua cultura (não só as diferentes práticas da cozinha e dos temperos mas o uso de diversos instrumentos com os quais se amassa a farinha ou se mexe a panela), fazendo-o passar pelos lábios ou pelo esôfago. Este é o único modo de viajar que faz sentido hoje, quando tudo o que é visível pode ser visto pela televisão sem sair da poltrona de cada um (...)?19.

Entendo que aqui uma importante questão se coloca quanto a este ?não sair da poltrona?, a poltrona do centro do mundo. O contato com um outro universo nos modifica, mas podemos também resistir a ele e não nos deixar abalar, para evitar uma experiência de descentramento. Esta atitude que não suporta o descentramento pode bem ser associada a uma postura fálica; mas o tipo de contato que o protagonista do conto nos propõe supõe uma outra postura, que aqui proponho que seja aproximada à feminilidade, pois além de exigir um descentramento, privilegia as particularidades, o doméstico e o cotidiano. É importante notar que a proposta de incorporação gustativa da cultura mexicana não incita a um confronto, mas a uma assimilação. Que efeitos ?devorar um país em sua visita?, conhecê-lo a partir da cozinha ? universo tradicionalmente feminino ? tem sobre os personagens?

A parte final do conto se passa em visitas a importantes monumentos da antiga civilização: as escavações de Monte Albán, um complexo de ruínas de templos, repleto de baixos-relevos, com escadarias e plataformas nas quais eram realizados os sacrifícios humanos, e o famoso Templo do Sol. O casal toma contato com outra dimensão da cultura asteca: a prática religiosa dos sacrifícios humanos, bastante freqüente, cujo sentido era propiciar que o Sol continuasse a nascer todos os dias.

Olívia insiste em saber se há uma ?culinária sagrada? utilizada nos rituais de sacrifício. Há uma inquietante insistência de Olívia sobre os possíveis rituais canibalísticos. Por fim, acaba por insinuar que nós também, hoje, comemos carne humana, fingindo não saber de nada e sem sentir o sabor. Olívia nos fala não em ocultar mas em honrar o sabor da carne humana.

No jantar, repete-se a cena em que ele a admira no gesto de comer, só que desta vez imaginando-se sendo comido por ela. No entanto, ao ser devorado, acontecia uma situação recíproca: ao mesmo tempo em que se via devorado, ele mesmo experimentava sensações prazerosas ao imaginar-se satisfazendo-a nesta fantasia canibalística. Nova descrição do menu do jantar; vamos ficando enfastiados, e Olívia manifesta sua insatisfação com a relação entre eles, vivida exclusivamente por meioda comida. Começa uma discussão. Ela o acusa de ser chato e monótono, e depois de desfilar os seus defeitos, acrescenta o adjetivo ?insípido?. Ele contra-argumenta afirmando que nem todos os sabores são fortes, já que existe uma gama de sabores mais discretos, mas chega à conclusão de que seu erro havia sido imaginar, todo o tempo, estar sendo comido por Olívia, quando ele também a devorava: a carne humana de melhor sabor é aquela de quem come carne humana, e só a devorando ele deixaria de ser insípido. A palavra chave aqui é ?reversibilidade?, o que se torna flagrante a partir da indagação sobre quem é a vítima e quem é o sacrificador: ?sem essa reversibilidade, o sacrifício humano seria impensável... todos eram potencialmente executores do sacrifício e vítimas... a vítima aceitava essa condição porque havia lutado para capturar os outros como vítima...?20.

Um suposto encantamento estaria se quebrando neste jantar, no qual comeram gorditas pellizcadas con manteca, literalmente ?gorduchinhas beliscadas na manteiga?. ?E, pela primeira vez durante a viagem, o encantamento que nos subjugara foi rompido e a inspiração que tinha favorecido os melhores momentos de nossa convivência tornou a visitar-nos?21. O conto termina com a visita ao Templo do Sol, nas escadarias do qual nosso protagonista tem uma visão: vê-se degolado numa mistura da energia solar, sangue e clorofila.?E vivia e morria em todas as fibras do que é mastigado e digerido e em todas as fibras que se apropriam do sol comendo e digerindo?22. Após a visita ao Templo, Olívia o esperava para o último banquete do conto, no qual a própria escrita do autor expressa um desvanecimento de contornos:

?(...) nossos dentes começaram a mover-se lentamente com ritmo similar e nossos olhares fixam-se um no outro com uma intensidade de serpentes. Serpentes mimetizadas na aflição de engolir-se reciprocamente, conscientes de sermos também devorados pela serpente que a todos nos digere e assimila sem cessar no processo de ingestão do canibalismo universal que põe sua marca em cada relação amorosa e anula os limites entre os nossos corpos e a sopa de frijoles, o huacinango e la veracruzana, as enchi-ladas...?23

O texto de Calvino nos faz pensar nas relações de objeto. Desde o começo, as cenas se passam em dois tipos de acontecimentos que caminham em paralelo: por um lado, os personagens realizam uma viagem pelo México e, por outro, cada momento da viagem vai suscitando uma série de reflexões sobre as relações do casal e seu circuito pulsional.

O quadro que abre o conto faz referência a um amor extraordinário ? o do capelão e da abadessa ? que o autor define como sublimado, ou como tendo encontrado uma outra carnalidade possível como via de satisfação, o que é evidenciado pelo desfecho de uma morte por amor. Diante do quadro e de sua história, o marido sente um vazio devorador, e a esposa formula um desejo específico para o jantar. Ele fala de seu mal-estar e em seguida quer saber o que ela pensa. Fala da relação deles, e assim nos situamos frente a uma relação na qual, segundo ele, muitas vezes as palavras são dispensadas e as correntes associativas de ambos se entremeiam, de modo que, sem ela, ele não pode seguir certos pensamentos e nem desfrutar as experiências da vida. Há por parte dele uma valorização do ?objeto? amado como condição de existência.

Depois da primeira cena, somos levados pelo personagem à mesa. Este destaca que as refeições e o prazer por elas despertado no casal são uma experiência de prazer compartilhado, e que só tem sentido se vivido à dois. O compartilhar a experiência é, a princípio, descrito como o fato de ambos terem exatamente a mesma vivência. Num segundo momento, o personagem se interroga sobre isso e pensa que cada um tem seu modo de sentir, e que são modos que se complementam. Note-se como no pensamento dele aparece freqüentemente a questão da unidade. O protagonista acaba por concluir, no entanto, que ambos viviam a mesma paixão conforme seus temperamentos: cada um ao seu modo experiência o amor, e também o prazer com as comidas. Haveria na descrição dos temperamentos algo do feminino e do masculino? Haveria uma maneira masculina e outra feminina de amar?

Freud, em ?Sobre o narcisismo: uma introdução?, aponta as dificuldades da mulher na construção da relação de objeto em função de sua falha narcísica. Referindo-se à mulher, diz: ?sua necessidade não se acha na direção de amar, mas de serem amadas?24 , diferentemente do homem, para quem o amor objetal completo é característico. Proposição de difícil digestão! Eis um tema que é de certa forma recolocado ao longo do tempo por diferentes autores, e que abre um flanco de questões teórico-ideológicas frente ao feminino. O argumento freudiano se baseia na idéia de que na mulher há uma passagem que não se completa, seja em relação ao Édipo, à inveja do pênis ou ao abandono do autoerotismo. Como apontei anteriormente, Montrelay busca ultrapassar a dicotomia entre os referenciais do falocentrismo e da concentricidade, propondo que os dois sistemas coexistem no inconsciente feminino, sem supor com isso que eles se completem com harmonia. Ora, esta mesma autora reedita a contradição que apontamos acima, ao propor que na mulher há uma falha no recalque, o que ocasionaria uma feminilidade em estado ?selvagem?. Continuamos ainda hoje com esta polêmica.

Como podemos compreender a relação amorosa retratada no conto? Se há, por um lado, um discurso apaixonado que tende a fechar qualquer brecha de descontinuidade ? já que é disto que trata a experiência de gozo ? reconhecemos quase sempre presente, por outro lado, um terceiro na relação, que podemos entender ora como a cultura mexicana, ora como a culinária, como a História ou como a arte, e que vai abrindo outras brechas.

À culinária é atribuído um poder de produzir um efeito sem retorno sobre a receptividade dos sentidos, tal como aparece no filme A festa de Babete25: a experiência gustativa de uma refeição especial transforma a vida dos sujeitos. Aqui também as refeições do casal vão ganhando o sentido de uma certa possessão, um encantamento que recaiu sobre eles. O encantamento é uma ?viagem? pelo circuito da oralidade, e o circuito do prazer gustativo parece ir se tornando exclusivo26.

Que condição dispôs o casal para tal encantamento? Freud, a partir do estudo das perversões, redefine a sexualidade, ampliando-a; talvez a brecha ao encantamento seja dada, portanto, por algo próprio da sexualidade humana. Com a descoberta do prazer erótico na degustação da culinária mexicana, ocorre uma invasão na vida amorosa do casal: vamos acompanhando uma experiência intensa de prazer, que se torna exclusiva. É de fato o prazer gastronômico, ou oral, que impede a realização da sexualidade genital do casal? Como entender melhor esse encantamento?

Algum aspecto ou dimensão daquela culinária exercia uma magia sobre o casal e nele se expressava. Algo daquela cultura e daquela história emergia do ?recalque? na relação deles. Assim como durante um processo analítico o recalcado retorna na relação transferencial, ali era em uma relação a dois que uma história maior que a deles se revelava. E por que emergia ali? Estamos de acordo com o personagem que entende que o contato com o mundo só pode se dar através das relações de objeto; é com o outro que se constrói, por exemplo, um olhar, e todos os canais de percepção do mundo. A relação dá a base que sustenta e propicia as experiências transformadoras que os personagens encontraram nessa viagem. Olívia põe sua própria cultura em questão, bem como seus costumes e sua relação com o marido. Um certo efeito devastador irrompe nela como um vulcão, trazendo questões que causam horror. É pelos sacrifícios humanos que ela, então, se interessa.

Entendo como feminino o movimento do casal numa viagem de distanciamento da ordem fálica, no contato com uma cultura na qual o lugar da existência humana é colocada de outra forma27. Quando Calvino descreve a alma prisioneira das mulheres e sua manifestação em uma culinária devastadora, ele nos fala de um ?manifesto? que faz irromper do recalque a potência feminina.

Surge então a questão: como conhecer realmente um país? É possível fazê-lo pela via do olhar, sem sair da poltrona? Calvino propõe uma resposta: conhecemos melhor pelos lábios ou pelo esôfago. É a partir do prazer gastronômico que se torna possível para o protagonista conhecer o ?estrangeiro? ? se deixar penetrar, se deixar transformar: pela via oral de percepção e de conhecimento. Há um despojamento de referenciais por parte do casal a fim de buscar uma maior aproximação da cultura com que tomam contato ou, melhor dizendo, com a diversidade da cultura mexicana. Os papéis masculino e feminino vão ganhando ?reversibilidade?.

Quais as conseqüências de se conhecer algo por essa via, pelo esôfago? Podemos dizer que é relativo ao feminino o retorno às questões da oralidade e a quebra da centralização genital, levando a uma intensificação das pulsões parciais28. A partir daí, são abertos caminhos para novas possibilidades libidinais na relação do casal. Isto pode ser observado, de fato, no conto de Calvino, especialmente na dimensão da percepção e do movimento dos sentidos: a palavra e a visão vão ficando em segundo plano. Abrem-se novas janelas.

E como podemos entender a proposição, colocada anteriormente, de que, no conto, algo associado à potência feminina emerge do recalque? Penso que aqui nos aproximamos do tema da antropofagia.

Olívia quer saber sobre a ferocidade/voracidade dos deuses e sobre rituais de antropofagia. Quer saber se os restos humanos eram comidos nos sacrifícios, e com que temperos. O ponto culminante desta sua investigação sinistra é atingido quando pensa que eram precisos temperos para realçar o sabor daquela carne para valorizá-la, e que esta se tornaria saborosa se fosse carne humana de quem se alimenta de carne humana. Chegamos, pois, à reversibilidade: só é possível um sujeito sacrificar outro na medida em que todos são potenciais vítimas.

Olívia denuncia o final dos tempos, e acrescenta que esta morte talvez só diga respeito a ?...nós que nos devoramos fingindo não saber de nada, fazendo de conta que não sentimos mais os sabores...(...)?29. Creio que aqui há uma referência à relação do casal, mas também à posição de nós, ?homens civilizados?, à figura do conquistador europeu. A personagem queixa-se de sentir seu companheiro indiferente e ?insípido?, situação que só é superada quando ele decide nutrir-se vorazmente dela; ora, talvez haja realmente uma saturação da civilização européia falocêntrica. Assim, os dois temas se entrecruzam: o canibalismo das relações de objeto e o canibalismo no nível da cultura.

Do lado do sujeito, penso que o canibalismo não precisa ser necessariamente carregado pela conotação que freqüentemente lhe é atribuída em termos de destruição e de assassinato tal como, por exemplo, em ?Totem e Tabu?, em que pese o aspecto da identificação por incorporação, já aí presente. Esta conotação é mais apropriada para as conquistas fálicas e para os grandes heróis, herdeiros e parricidas do pai originário da horda. Sem pôr de lado o aspecto da agressividade, busco aqui ressaltar neste ato o que ele tem de ?sagrado?, de valorização do objeto. Esta observação nos faz lembrar da relação mãe-filho, na qual há um devorar-se ? que entendo como experiência de mútua assimilação carnal ? sem que haja necessariamente um assassinato. Talvez seja importante ressaltar, no presente contexto, que a agressividade do ato não equivale necessariamente à sua intenção destrutiva ou à violência em si mesma.

Quanto ao âmbito da cultura, há uma relação de confronto sangrento entre a civilização asteca e a espanhola, e uma destrutividade que nos faz pensar em um outro tipo de ?devoração?, através da qual se tentou apagar toda uma rica vida cultural. Este seria o movimento fálico de conquista. A posição dos jesuítas foi, curiosamente, um tanto diferente. Eles puderam, em meio ao fogo cruzado, produzir uma cultura canibalizada no outro sentido: embora tenham sido usados pelos governantes europeus para fazer sucumbir a cultura local, acabaram por permitir um sincretismo muito interessante, talvez numa posição feminina de se deixar penetrar. Lembro-me aqui de uma ?missa? tupi recentemente gravada por Marlui Miranda em homenagem ao padre José de Anchieta30, e da utopia que significaram as ?missões? na nossa América.

A Bienal das Artes de São Paulo de 1998 relembrou a antropofagia de nossos antepassados e o manifesto antropófago de Oswald de Andrade. Trata-se de um consistente posicionamento frente à aculturação que sofria a arte brasileira, sem uma identidade própria; talvez o receio subjacente a esta situação fosse que se a produção local não se submetesse a tal processo provocaria o horror e a ira do europeu, aquele que determinava o que era ou não o ?belo?. A palavra de ordem era devorar o homem branco e sua cultura, assimilar suas qualidades e produzir a partir daí o nosso próprio modo de existência31.

Podemos pensar que Calvino sugere, no seu conto, um paralelo entre a relação de domínio conquistadores/conquistados e a relação de gêneros, através de uma aproximação entre a cultura asteca dominada e o feminino, o que Olívia capta tão bem. No casal havia, em certo momento, o receio de um se sobrepor ao outro, ou de haver uma cumplicidade baseada em uma complementaridade que apaga as diferenças através de um circuito fálico-narcísico; ao final, aparece a possibilidade de reversibilidade, por meio da qual os papéis masculino e feminino podem se interpenetrar32.

Olívia encarna nosso continente negro: falamos dela, mas de Olívia nada sabemos, visto que é só pelo recorte da palavra de seu companheiro que ela fala. Delicado e significativo enquadramento que Calvino escolhe para o conto, e que de maneira tão significativa expressa a natureza do feminino. Não teria ele captado que o feminino só pode ser atingido quando abordado indiretamente, especialmente por um canal masculino, que possa ser permeável e reversível?

Encontramo-nos, freqüente-mente, no texto, com a situação de um ?comer junto?. Sobre este fazer uma refeição com o outro, Lemoine-Luccioni disse: ?Não há algo mais inocente, não é mesmo?? Depois desse conto nós o sabemos bem. O comer junto remete a um comer por ou contra alguém. A autora propõe que o ritual da refeição ? o estar à mesa ? é um compêndio de todos os dramas de uma família, e que ali tudo se revela, conforme já vimos nas sugestões de Freud da Interpretação dos sonhos. Quanto ao que se come, ela acrescenta, é sempre a mãe, já que o pai está bem morto. ?É sempre ela quem dá e quem se dá de comer.?33 Temos novos caminhos de investigações possíveis: comemos prioritariamente a mãe ou o pai?

O tema do ?comer junto? nos conduz, finalmente, à idéia de um ?comer-se recíproco?, com o qual o conto termina. Oswald de Andrade, parafraseando Shakespeare, nos propõe a dilemática questão: ?Tupi or not Tupi?34 ? Eu acrescentaria, ainda, sob o signo da feminilidade, uma outra: ?comer ou ser comida?? O princípio da reversibilidade talvez nos indicasse: ?comer e ser comida?.



NOTAS

1. M. Montrelay, ?Investigaciones sobre la femini-dad?, in J. Nasio, Acto psicanalítico Teoria y clínica, Buenos Aires, Nueva Vision, 1979.

2. J. Chasseguet-Smirgel, C. J. Luquet-Parat, B. Grunberg, J. McDougall, M. Torok e C.David, Recherches psychanalitiques nouvelles sur la sexualité féminine, Paris, Payot, 1964.

3. E. Lemoine-Luccioni, ?Las Mujeres Tienen Alma?, Barcelona, Biblioteca de Psicoanálisis Editorial Argonauta, 1990, p. 24-25.

4. E. Lemoine-Luccioni, op. cit., p. 26.

5. E. Lemoine-Luccioni, op. cit., p. 23-24.

6. S. Freud, A interpretação dos sonhos (1900), in Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro, Imago, 1987, vol. V, p. 387.

7. S. Freud, ?Conferências introdutórias sobre psicanálise? (1917), op. cit, vol. XVI, p. 311.

8. I. Calvino, Sob o Sol Jaguar, São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

9. I. Calvino, op. cit., p. 32.

10. I. Calvino, op. cit., p. 32.

11. I. Calvino, op. cit., p. 33.

12. I. Calvino, op. cit., p. 33.

13. I. Calvino, op. cit., p. 34.

14. I. Calvino, op. cit., p. 35.

15. I. Calvino, op. cit., p. 37.

16. Utilizo aqui a noção de perversão tal como trabalhada por Freud nos ?Três ensaios sobre a teoria da sexualidade? (1905) e nas ?Conferências introdutórias sobre psicanálise? (1917), textos anteriores ao ?Fetichismo? (1927), no qual se dá uma considerável ampliação do conceito. Na conferência XXI ?O desenvolvimento da libido e as organizações sexuais? Freud discute as diferenças e semelhanças entre a sexualidade normal e a perversão sexual, destacando que nesta última também há uma concentração de zona erógena, com a diferença de que não se trata mais da zona genital; é daí que decorre o caráter desviante da perversão. Sobre este tema vide F. C. Ferraz, Perversão, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2000.

17. I. Calvino, op. cit., p. 38/9.

18. I. Calvino, op. cit., p. 39.

19. I. Calvino, op. cit., p. 40.

20. I. Calvino, op. cit., p. 54.

21. I. Calvino, op. cit., p. 54/5.

22. I. Calvino, op. cit., p. 56.

23. I. Calvino, op. cit., p. 56.

24. S. Freud, ?Sobre o narcisismo: uma introdução (1914)?, op. cit., vol. XIV, p. 95.

25. G. Axel (direção), Babette?s feast [A festa de Babete], Dinamarca, 1987.

26. Annie Anzieu desenvolveu de modo muito interessante o sentido constitutivo da sensorialidade, em seu livro A mulher sem qualidade: estudo psicanalítico da feminilidade, São Paulo, Casa do Psicólogo, 1992.

27. Sobre o tema da feminilidade relacionado à questão da predominância da ordem fálica em nossa cultura, assim como sobre seus efeitos entre os quais a emergência do sentimento de horror frente ao feminino ver J. Birman, Cartografias do feminino, São Paulo, 34, 1999.

28. Muitos autores tratam do tema da feminilidade em suas relações com as pulsões parciais; Lemoine-Luccioni coloca que isso se deve ao fato das mulheres não possuírem uma organização pulsional tão bem articulada como os homens pela diferente relação destas com o falo. (E. Lemoine-Luccioni, ?La mujer en el psicoanálisis?, in op. cit., p. 64)

29. I. Calvino, op. cit., p. 50.

30. M. Miranda [CD], 21IHU Kewere, produção de Rodolfo Stroeter, São Paulo, Pau Brasil, 1997.

31. O manifesto antropófago de Oswald de Andrade pode ser tomado também como modelo para pensar o aculturamento na história da produção psicanalítica brasileira; sobre isto ver o artigo de Mirian Chnaiderman, ?Existe uma psicanálise brasileira??, Percurso n. 20, São Paulo, 1998.

32. Renata Cromberg discute o tema da feminilidade na relação de objeto, na qual a mulher que tem acesso ao feminino em si não teme ser usada como objeto sexual. As coisas não necessitam ser colocadas nestes termos, pois o parceiro sexual é sempre investido de alguma espécie de amor. Ao contrário: trata-se de usar e se deixar usar como objeto, e de um encontro no qual o outro pode fazer parte de si e, ao mesmo tempo, o sujeito pode colocar-se para fora de si mesmo. C. F. R. Cromberg, \"Un corps qui tombe un corps qui se relève, féminilité autrement dite?, in J. André, La féminité autrement, Paris, PUF, 1999. Aqui podemos, reconhecer, talvez, e dito de outro modo, o mesmo princípio da reversibilidade.

33. E. Lemoine-Luccioni, op. cit., p.27.

34. O. Andrade, Manifesto antropofágico.




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