Torções do feminino e função analítica

Denise Maurano
dmaurano@bridge.com.br
Publicado el: 2013-12-04


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Este trabalho contém algumas idéias publicadas em meu livro La face cachée de l’amour, editado recentemente pela Presses Universitaires de Septentrion, França.


Resumo:

Este trabalho contém algumas idéias publicadas em meu livro La face cachée de l?amour, editado recentemente pela Presses Universitaires de Septentrion, França. Nele, abordo a função do amor no processo psicanalítico como apego a um sentido que encontra na interpretação analítica um corte, remetimento à operação de uma ?Outra Cena? que é a do Inconsciente. Nessa ruptura localiza-se a dimensão trágica da psicanálise que indica a especificidade de sua ética, que diferentemente de trabalhar com perspectivas ideais e obturantes, dirige-se a confrontação com o limite do Real. Exploro a afinidade desta ética com a que vigora na estética barroca que é caracterizada como feminina, em relação à virilidade da obra clássica. E relaciono a ampla penetração da psicanálise no Brasil com a vocação barroca brasileira.

Palavras chaves: feminino, transferência, psicanálise, barroco

No seminário de Lacan sobre a transferência, lê-se que o amor tem relação com os deuses, e se os deuses estão no Real, então o amor tem relação como o Real. É verdade que há uma tendência para tratar o amor de maneira imaginária, onde o objeto eleito serve para mascarar a hiãncia entre o sujeito e o objeto, mas não é isso que é preciso encaminhar na experiência analítica. A transferência deve servir para interrogar o objeto por ela investida para saber qual é o agalma, a preciosidade escondida que guarda em seu ventre, e que funciona para o sujeito como elemento de atração para o desejo. É preciso demarcar esse objeto, esse agalma para saber sobre o desejo. Entretanto, se o desejo caracteriza-se pela relação à falta, não é o objeto em si mesmo que é o mais importante para a sua dinâmica, mas a perda, ou melhor dizendo, os traços que essa perda deixa e que fazem o contorno do que é buscado pelo desejo. Por essa via, pode-se pensar que a relação ao desejo implica um certo fracasso da apologia do objeto.

A transferência, esse laço afetivo ao analista, testemunha o que, na organização subjetiva do paciente, é comandado por esse objeto chamado pequeno a. Por conseqüência, ?a carga, o fardo do herói analista? é ?de ter que interiorizar esse a, retê-lo em si, bom ou mau objeto, mas como objeto interno, e que é daí que surgiria toda a criatividade por onde deve restaurar, do sujeito, o acesso ao mundo.? Dessa incorporação de a, o analista é paciente. O ?a de que se trata é, a saber, o objeto, absolutamente estrangeiro ao sujeito que nos fala, na medida em que ele é a causa de sua falta.? 1 Esse objeto estranho é o que se encontra no centro do que é designado como subjetividade.

No início do trabalho, o analista é colocado como suporte da transferência, como o sujeito-suposto-saber, ou seja, o paciente lhe supõe um saber sobre o que procura em si mesmo. Ao analista é creditada a posição de grande Outro, aquele que goza do saber e que é o assegurador da ordem das coisas. Mas como não há sujeito nesse grande Outro, ao termo da experiência analítica, o analista reduz-se a ser o guardião do lugar do objeto pequeno a, um objeto que tem por destino ser rejeitado. Para que isso aconteça, é preciso que o analista exponha-se a uma tal destituição. É essa dimensão de corte e de separação presentes na interpretação analítica, que caracteriza o essencial do que é nomeado ato psicanalítico.

Ainda sobre a questão do objeto a, no seminário sobre O ato psicanalítico, Lacan faz uma relação entre este e o ato trágico. Primeiramente, salienta a necessidade de os analistas se darem conta de que o Édipo é uma tragédia, constatação esta que lhes permite enxergar o limite de sua operação. Ele diz que « tudo isso que é da ordem do sujeito está no nível de algo que tem esse caráter dividido que há entre o espectador e o coro ». 2 E na lição seguinte acrescenta,

« não confundimos a ficção trágica ? quero dizer que o mito de Édipo, de Antígona, por exemplo ?, com o que é verdadeiramente uma aceitação, a ?única válida, fundada, da tragédia, à saber a representação da coisa. Na representação estamos evidentemente mais perto dessa esquize tal como ela é suportada na tarefa psicanalisante. Ao termo da psicanálise, pode-se, realizada a divisão do sujeito psicanalisante, suportá-la da divisão que estava no ar, onde se podia desempenhar a representação trágica na sua forma mais pura, nós podemos identificá-lo, esse psicanalisante, ao casal dividido e relativo do espectador e do coro » 3

Entendo as considerações acima como um alerta de que é preciso não se restringir ao mito, à referência à Édipo. O mito tem sempre relação com o âmbito do sentido; é a tentativa de capturar o que está no Real incompreensível. A psicanálise não visa fixar o homem nesse âmbito, mas sim conduzi-lo num percurso de travessia do sentido. É preciso esgarçar o sentido onde se aloja a ?espaçosa? subjetividade. Isso significa atravessar o fantasma que tenta fazer a conjugação do sujeito ao objeto. É preciso ir além do mito para tocar aquilo de que se trata na psicanálise. Ela não é absolutamente uma hermenêutica. É nessa medida que a dimensão do ato que compõe a representação trágica, exibe o sujeito enquanto fruto de uma divisão, divisão que se aloja no seio do campo do sentido.

No seminário A lógica do fantasma, é acrescentado que no ato o sujeito está representado como divisão pura. Não se trata do ato como manifestação de movimento, ato motor, mas de um ato onde o sujeito é, pode-se dizer, equivalente a seu significante, e mesmo assim ?nem por isso ele fica menos dividido?. 4 A vitória do ato falho reside no fato de o desejo inconsciente atravessar as intenções do ?indivíduo?, evidenciando a dimensão do ato que interessa à psicanálise. É nesse sentido que a psicanálise é a colocação em ato do inconsciente. Encontramos no seminário De um discurso que não será do semblante, a propósito do discurso do analista, a seguinte afirmação ?o discurso do analista não é mais que a lógica da ação?. 5

É verdade que no discurso do analista, nesse modo muito particular de laço social, trata-se da lógica da ação na operação analítica, na qual destacaria o papel fundamental da ação do corte. Tem-se aí dois termos essenciais dessa operação: o laço da transferência, no qual vigora o apelo ao sentido, e o corte introduzido pela interpretação analítica, que em último termo, aponta o não-senso. Por essa via, o tratamento permite a localização da função do Nome-do-Pai nesse ponto onde essa função, responsável, como já vimos, pela regulação do sujeito a seu desejo, não teve possibilidade de se realizar. Mas a cura visa também um mais além disso.

É a partir do Outro que o sujeito fala e deseja. Esse Outro, alteridade radical, que não é a mãe, o pai, ou qualquer semelhante, qualquer partner imaginário; marca o lugar da linguagem, que permite ao sujeito humano situar-se diante do sexo e das gerações. Isto situa a via de introdução do registro simbólico no psiquismo e por conseqüência, da castração. O Nome-do-Pai é justamente esse significante que no Outro, na alteridade, é o significante do Outro enquanto lugar da lei, do limite onde o sujeito encontra sua delimitação, sua nomeação. Finalmente, cabe ressaltar que a questão do sujeito diante do Outro não se resume a esse Outro como lugar da lei.

Na perspectiva mais radical o Outro remete ao que está além de toda regulação possível. A libido organiza-se, regula-se tomando o phallus como símbolo. No entanto, por ora o que quero ressaltar aqui é a dimensão do Outro que ultrapassa a referência fálica. A inscrição fálica articula o gozo às leis do significante, leis da linguagem, mas a noção de gozo Outro proposta por Lacan, aponta um gozo fora da linguagem, fora do sexo, fora da possibilidade de ser apreendido por representações. Entretanto, é na medida em que estamos todos dentro da referência fálica, referência de linguagem, que também a partir dela que podemos sentir os efeitos de um mais além. É essa sinalização de um mais além do fálico que permite a Lacan sublinhar, em relação aos humanos, não propriamente a difundida dualidade dos sexos, mas uma outra dualidade, frente a qual o sujeito é dividido ? a dualidade de gozos: gozo fálico e um gozo Outro, sempre visado.

Diante da limitação do gozo sexual, gozo fálico, dependente do órgão, esse gozo Outro coloca-se como visado, da mesma maneira que se imagina sempre a galinha do vizinho como a mais saborosa, mais ainda..., como sugere o título do seminário. É nessa perspectiva que o sexo feminino é qualificado como Outro em relação ao phallus, tanto para os homens quanto para as mulheres, porque enquanto sujeitos falantes, as mulheres estão também no registro fálico, e assim, não estão inteiramente no domínio do feminino.

Esse gozo Outro, designado também como gozo feminino, não tem relação com a castração e conseqüentemente nem com a função do Nome-do-Pai. Não é o caso, nesse momento, de depreender todas as implicações dessa noção de gozo Outro. Deixarei esse trabalho para uma próxima oportunidade. O que está me interessando agora é a indicação de um paradoxo na cura analítica. Porque se o que é visado no trabalho analítico é o acionamento da função do Nome-do-Pai naquilo em que esta mostrou-se deficitária para a regulação simbólica, a cura mesma pretende entretanto, levar o sujeito a poder dela se passar, ou melhor ainda, a poder ultrapassá-la, isto é, tocar esse registro que está para além do domínio do phallus. Isso implica um certo encaminhamento em direção ao Real, em direção ao furo no saber, em direção à perda da esperança de suturar a falha no saber, o que se articula a essa suposição de um gozo Outro que aquele do domínio da representação. É a indicação de Freud da inexistência de representação do sexo feminino no inconsciente que permitiu a Lacan qualificá-lo como Outro em relação ao phallus, e a tudo o que se organiza em torno deste .

Assim esse Outro, A/ mulher, ?só se pode escrever barrando esse A, esse artigo definido para designar o universal?. 6 Não há universalidade possível quando se trata de mulher. Ela situa-se no lugar do enigma absoluto, lugar de um buraco radical, o que assinala um mais-além da castração, porque não está em relação ao phallus. Tanto para os homens, quanto para as mulheres, na dimensão empírica dessas, A/ mulher é o ponto mais extremo de toda análise. Toda análise, na medida do possível, conduz em direção a A/ mulher. Diria que esse é o ponto limite do saber, do sentido, da representação, que está em uma relação de vizinhança com o Nada, ao qual chega o herói das tragédias, para ir até o fim com seu desejo. Ir até o fim com seu desejo significa ultrapassar a ancoragem do sentido, da delimitação, para tocar um Nada que mostra bem seu valor efetivo. Não há mais aí nenhum véu de Maya, véu de ilusões, para esconder a evanescência do desejo, ponto radical da nossa destinação.

Entretanto, não é à toa que, a propósito da distinção entre o herói e o homem comum, Lacan alerta que ?em cada um de nós há a via traçada para um herói, e é justamente como homem comum que ele a efetiva?. 7 Assim, o Nada ao qual se endereça uma análise, apesar de ser um Nada pleno de positividade, porque é no final das contas, tudo o que nós temos, não é algo de fácil acesso, mesmo porque implica risco. Em uma certa dimensão, poder passar sem a função do Nome-do-Pai implica um outro modo de relação com a lei, donde também decorre uma outra posição frente a culpa. Lacan lembra que ?a única coisa da qual se pode ser culpado, ao menos na perspectiva analítica, é de ter cedido de seu desejo?. 8 Ou seja, ter se afastado, em nome de qualquer boa intenção, da articulação própria que suporta o tema inconsciente e nos enraíza em uma destinação particular. Mas se nesse campo onde se ancora a direção ética da psicanálise, tem-se a vantagem de reencontrar alguma orientação mais efetiva da ação, para nele se chegar é preciso que se pague o preço do acesso ao desejo. O desejo, definido como metonímia de nosso ser, não é apenas o que se modula pela cadeia significante, mas é também o que corre debaixo, ?que é, propriamente, o que somos, e também o que não somos, nosso ser e nosso não-ser?. 9 Então é preciso pagar o preço do não-ser, o preço da perda da ilusão de encontrar uma consistência pela via da relação de objeto, que não é senão o objeto a.

Penso que por essa via pode-se ver o caráter topológico dessa abordagem do heterogêneo. Pode-se pensar não pelo antagonismo, mas na perspectiva do paradoxo. O pensamento trágico é este tipo de pensamento que acolhe a ausência do não no inconsciente. A meu ver isso dimensiona a grandeza do passo de Lacan para fora do cartesianismo, tanto em sua forma de ampliar a teoria e a clínica freudiana, como no estilo de sua transmissão.

Para concluir, deixo uma observação. Se levarmos mais adiante as idéias acima expostas, creio poder dizer que a falta de ênfase da racionalidade cartesiana no Brasil, e em contrapartida, um tipo de vocação de um pensamento que acolhe os contrários, nomeado como barroco, tem talvez possibilidade de explicar um pouco a maneira pela qual a psicanálise se expandiu nesse país com tamanha facilidade. Sabemos que a expressão mais característica do Brasil é a barroca. As comemorações dos quinhentos anos tem assinalado isso. No seminário Mais ainda, Lacan diz que a psicanálise é barroca. O trágico, o barroco, me parecem expressões estéticas onde opera uma ética que tem a mesma estrutura da ética da psicanálise. Em sua heterogeneidade em relação ao Clássico, não é à toa que o barroco está identificado ao feminino, a uma certa força da natureza, identificado no fim das contas, a um gozo Outro. Então aproveitemos desses elementos de monstração que vem da estética para a difícil transmissão da nossa ética.


Bibliografia :

LACAN, Jacques, Sém, livre XX, L?Encore, Paris, Seuil, 1975.
_____, Sém., livre VII, L?Ethique de la Psychanalyse, Paris, Seuil, 1986.
_____, Sém, livre VIII, Le Transfert, Paris, Seuil, 1987.
_____, L?angoisse, livre X, inédito.
_____, L?acte psychanalytique, livre XV, inédito.
_____, La logique du fantasme, livre XIV, inédito.
_____, D?un discours qui ne sera pas du semblant, livre XVIII, inédito.

Notas:

1 LACAN, Jacques, L?angoisse, livre X, inédito, lição de 30/01/63.
2 _____, L?acte psychanalytique, livre XV, lição de 21/02/68, inédito.
3 _____, Op.Cit., 20/03/68
4 _____, La logique du fantasme, livre XIV, lição de 15/11/67, inédito.
5 _____, D?un discours qui ne sera pas du semblant, livre XVIII, lição de 17/02/71, inédito.
6 _____, Sém, livre XX, L?Encore, Paris, Seuil, 1975, pg.68.
7 _____, Sém., livre VII, L?Ethique de la Psychanalyse, Paris, Seuil, 1986, pg. 368.
8 _____, Op.Cit.
9 _____, Op.Cit., pg 371.



Denise Maurano

* Psicanalista, Membro do Corpo Freudiano do RJ, Doutora em Filosofia pela Universidade de Paris XII, Prof. da Universidade Federal de Juiz de Fora, autora dos livros Nau do Desejo, RJ, ed. Relume Dumará, 1995 e La face cachée de l?amour, FR, Presses Universitaire de Septentrion, 2000. Email: dmaurano@bridge.com.br

*Artigo publicado na Revista Documentos ? Corpo Freudiano do RJ, v.1, n.17, 2001.

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